Uma História Natural das Ruínas | Pivô

Candice Lin, Whole New Animal, digital video, 20'21, 2012

O Pivô abre seu programa de exposições de 2021* com a coletiva Uma História Natural das Ruínas. Com abertura prevista para 22 de fevereiro, a mostra propõe uma revisão crítica da distinção moderna entre cultura e natureza a partir da obra de um grupo singular de quinze artistas, de diferentes contextos e gerações, alguns deles apresentando suas obras no Brasil pela primeira vez.

As implicações da representação fora da linguagem, através da exploração de outras tecnologias e formas de inteligência que não as humanas, estão no cerne do projeto curatorial de Lozano. Ela conta: “No centro da exposição está uma crítica à divisão moderna entre natureza e cultura e suas implicações ontológicas”. Por meio de uma série de processos históricos, alguns humanos se separaram da natureza, fabricando-a, portanto, como categoria. Lozano prossegue: “Os regimes coloniais propagam essa noção por meio da educação e da exploração, normalizando a natureza como um ‘recurso’ à disposição dos humanos. É em grande parte por meio do conhecimento e das práticas ecológicas dos povos indígenas que essas categorias coloniais podem ser produtivamente desafiadas”.

A exposição também busca oferecer oportunidades para pensar sobre a cura no que a antropóloga Anna Tsing chamou de “sobrevivência precária”. É a vida multiespécie que reage à violência humana na paisagem arruinada do capitalismo. Lozano especula: “As ruínas produzidas no presente podem ser parcialmente consideradas como a projeção de um inconsciente modernista”.

Através de uma pluralidade de práticas e diferentes mídias, tais como pinturas, instalações, vídeos e performances sonoras, as/os artistas presentes na exposição, nas palavras da curadora, “enfrentam a brutalidade das categorias e práticas binárias modernas”.

Alguns destaques da mostra: Em Mesa Curandera (2018), o artista francês Louidgi Beltrame registra cerimônias de cura com o cacto San Pedro promovidas por um xamã no Peru; Qapirangajuq: Inuit Knowledge and Climate Change (2009), do coletivo de arte e mídia inuit Isuma, que ocupou o pavilhão do Canadá da Bienal de Veneza em 2019, é o primeiro documentário feito em idioma inuktitut sobre o tema do aquecimento global; os delicados desenhos do yanomami Sheroanawe Hakihiiwe descrevem as formas e marcas deixadas por animais e plantas que fazem parte do ambiente onde vive, no Alto Orinoco venezuelano; feita especialmente para o projeto pelo espanhol David Bestué, a série de novos trabalhos tem inspiração no Poema Sujo, de Ferreira Gullar; Whole New Animal (2012), vídeo da estadunidense Candice Lin, interroga as histórias do colonialismo e do imperialismo no Brasil, EUA e Bélgica; além da participação de duas jovens artistas brasileiras Janaina Wagner, com o vídeo Lobisomem (2016), e max wíllà morais, que apresentará uma obra inédita.

*O programa de 2021 do Pivô se articula em torno da leitura feita pelas antropólogas Marisol de la Cadena e Milton Blaser do conceito de pluriverso, como mundo onde cabem muitos mundos. Esse conceito alinha as pesquisas dos artistas envolvidos no programa de exposições, e aparecerá também de maneira transversal nos outros programas da instituição. Acompanhe em www.pivo.org.br.

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