O Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC-Niterói) se transforma em uma casa imaginária na exposição UM TETO. A mostra apresenta obras de Ayla de Oliveira, Carla Duncan, Dayane Tropicaos, Elisa Arruda, Iahra, Maria Lynch, Marina Quintanilha e Marlene Stamm para abordar temas como trabalho doméstico não remunerado, cuidado, invisibilização, desigualdades raciais e sociais e a produção artística contemporânea.
Com curadoria de Luiza Testa, a exposição parte do ensaio Um teto todo seu (1929), de Virginia Woolf, para discutir as condições materiais e simbólicas de criação das mulheres artistas. No ensaio, Woolf defende que a produção intelectual feminina está diretamente ligada a condições como independência financeira, acesso à educação, tempo livre e um espaço próprio para pensar e criar. Quase um século depois, UM TETO retoma esse debate no campo das artes visuais, perguntando quais “tetos” ainda precisam ser conquistados para que mulheres possam criar e permanecer no sistema da arte.
A exposição se organiza em um percurso narrativo pelos diferentes ambientes do lar, começando nas áreas sociais e avançando gradualmente para os espaços mais íntimos. Na entrada, Elisa Arruda introduz o público à exposição com esculturas de cadeiras “impossíveis”, que refletem sobre a permanência e relação das mulheres com o espaço doméstico. Já na sala, Iahra apresenta uma instalação em papelão que aborda a casa como lugar de sociabilidade e fala sobre o direito de a mulher ocupar não apenas a esfera privada, mas também o mundo.
As pinturas da série Arranjos, de Carla Duncan, ocupam a cozinha para tratar da invisibilização do trabalho doméstico e do cuidado. Na área de serviço, Dayane Tropicaos puxa o fio das desigualdades sociais, raciais e de gênero no trabalho com a instalação Abre Caminho, que visibiliza funções precarizadas desempenhadas por mulheres. O percurso passa pelo quarto, onde Ayla de Oliveira explora dimensões da espiritualidade e intimidade, e segue para o banheiro, onde Marina Quintanilha reflete sobre a pressão estética por meio de símbolos do cotidiano feminino, como na escultura Calcinhas. Intervenções de Marlene Stamm atravessam os diferentes ambientes da exposição, criando conexões entre os cômodos da casa.
O percurso se encerra no ateliê, ocupado por Maria Lynch com a grande instalação em tecidos coloridos Disjunção espacial. Para Testa, terminar a mostra num espaço de criação e expressão feminina é simbólico: “Nós saímos de gestos muito contidos e vamos para gestos muito coloridos e expansivos. É como se isso fosse trabalhado ao longo da exposição toda, para chegar numa explosão do inconsciente, que é a obra da Maria”, declara a curadora.

