Três Paisagens | Casa de Cultura do Parque

Para além de um espaço ou território determinado, a paisagem é uma construção que agrega elementos naturais e geográficos e, ainda, algo da história e da cultura. Reflexões sobre a temática permeiam a mostra Três paisagens, coletiva com os artistas Ana Paula Oliveira, Daniel Caballero e Fernando Limberger e direção artística de Claudio Cretti. A exposição tem abertura em 9 de novembro e fica em cartaz até 26 de janeiro, na Casa de Cultura do Parque.

“A paisagem está ligada às projeções, ao que ainda irá acontecer, ao porvir, e também ao devir”, diz Cauê Alves, que assina o texto da mostra. “Seja natural ou artificial, a paisagem está diante ou ao redor de nós e portanto é indissociável do ambiente em que vivemos”, completa.

A diversidade retratada nos trabalhos de Oliveira, Caballero e Limberger, concebidos a partir de intervenções no ambiente expositivo ou de elementos recolhidos da natureza, visa contribuir para a ampliação da consciência do mundo e para a superação das adversidades ambientais.

Segundo o professor, a paisagem sempre foi objeto de investigação das ciências e das artes, desde os naturalistas na América do Sul, como Karl Friedrich Philipp von Martius e Alexander von Humboldt, até os contemporâneos. Entre os modernistas, ele destaca a pesquisa de Roberto Burle Marx, que ao longo de sua trajetória, além da Mata Atlântica, trabalhou com plantas do cerrado, espécies amazônicas e do sertão nordestino.

Três Paisagens segue essa investigação. A exemplo de Dark tropicália (2019), de Daniel Caballero, série de quatro pinturas em lonas de caminhão, com fragmentos de árvores e cipós. O preto, cor predominante das obras, representa a tropicalidade da Mata Atlântica e chama a atenção para o obscurantismo da contemporaneidade em relação às florestas.

Viajante, o artista está envolvido desde 2015 com pesquisas em terrenos baldios e remanescentes do planalto paulista. O estudo resultou em materiais para o projeto Cerrado infinito, composto por vídeos que caminham entre performance e documentário e apontam para investigação de uma natureza em colapso. O trabalho, com um viés de ativismo político, aborda a resistência de espécies vegetais desvalorizadas, reforça o posicionamento contra a homogeneização da paisagem e reabre a discussão sobre ambiente e construção de vistas urbanas.

Além de artista, Fernando Limberger é paisagista profissional e propõe uma relação entre paisagem e paisagismo. Com a instalação Paisagem reflexa: Parque Villa-Lobos (2019), ele constrói um espelhamento do parque vizinho na área externa na Casa de Cultura do Parque. O vínculo é estabelecido pela coleta, tratamento e plantio das sementes de espécies do Villa-Lobos, semeadas sobre um desenho de inspiração modernista que nunca vai se completar, pois algumas sementes não vão germinar e outras requerem mais tempo que os três meses da exposição. O reflexo do título também se aplica à ideia de reflexão sobre o projeto paisagístico e o local onde o parque foi implantado – um antigo aterro de materiais de construção, lixo e material de sedimentação retirado do Rio Pinheiros. Após o término da mostra, as mudas dispostas na “sementeira” serão distribuídas para pessoas interessadas em cultivá-las.

Limberger também exibe a Série verde, ambientes (2018), nove desenhos criados com penas tingidas de preto sobre papel em tonalidades esverdeadas. Semelhante à instalação, os desenhos aludem a vistas aéreas de projetos paisagísticos, plantações, áreas aradas, caminhos e outras paisagens manejadas.

Em Tempo hábil (2019), Ana Paula Oliveira inventa paisagens a partir de 5 mil origamis de cigarras e peças de madeira-de-lei retiradas de antigas ferroviárias.  Suspensas e presas por cintas que amarram carga de caminhão, elas apoiam as leves dobraduras que invadem o espaço. Na mostra, a artista faz uso de animais metalizados, naquim sobre o papel e demais materiais para representar linhas e casulos semelhantes a fósseis, que evidenciam a interrupção da vida.

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