transições entre passagens – Galeria Millan

A exposição “transições entre passagens”, organizada por Gisela Gueiros, acontece de 12 de novembro a 12 de dezembro de 2020 na Galeria Millan, em São Paulo, em parceria com Galeria Raquel Arnaud. A mostra, que reúne obras de Alfredo Volpi, Paulo Pasta e Elizabeth Jobim, estará simultaneamente online através da plataforma Preview, co-fundada pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro.

Alfredo Volpi (Luca, Itália, 1896–1988 São Paulo, SP), um dos mais celebrados pintores brasileiros do século 20, é conhecido por explorar cores, formas e padronagens em um vocabulário abstrato que retrata elementos da vida cotidiana — principalmente fachadas e bandeirinhas — em composições vibrantes. Nascido na Itália, Volpi se muda, ainda bebê, com os pais para o Cambuci, bairro de classe média baixa de São Paulo, em 1897. Desde cedo trabalha como marceneiro, entalhador e encadernador. Aos 16 anos, passa a atuar também como pintor de paredes, momento em que começa a explorar a pintura em madeira e tela – experiência que confere ao artista a habilidade de preparo de superfícies e mistura de pigmentos.

A partir da década de 1940, sua obra passa por uma simplificação formal. Neste período, Volpi adota o uso da têmpera. O uso de tal mistura proporciona uma textura fina e única às suas pinturas, fazendo-as contrastar com a tinta industrial, marca registrada da arte concretista a partir dos anos 50. Ao longo das quatro décadas seguintes, o artista se dedica a navegar entre a figuração e a abstração. Notavelmente, Volpi nunca participou de movimentos artísticos específicos, nem coassinou nenhum dos manifestos de seus contemporâneos. Nas palavras do crítico Rodrigo Naves, “Volpi não era um teórico ou alguém que clareasse sua concepção visual por meio de formulações escritas ou debates”. Em vez disso, combinou o estudo de artistas, como Giotto — quando visita a Itália — e Paul Cézanne, Henri Matisse, Giorgio Morandi e Josef Albers — quando expostos no Brasil — com o profundo interesse pela arte e tradições populares brasileiras, construindo assim uma obra autoral.

Considerado um mestre na história da arte brasileira, ainda que não tão conhecido internacionalmente, Volpi teve um impacto profundo em muitos artistas, tanto em vida quanto postumamente. A presente exposição tem como objetivo apresentar seu trabalho ao lado de Paulo Pasta (Ariranha, SP, 1959) e Elizabeth Jobim (Rio de Janeiro, RJ, 1957), dois dos mais importantes artistas brasileiros da atualidade. Essa justaposição entre os três artistas se torna possível através das lentes do texto seminal Interaction of Color [Interação da Cor], escrito em 1963 por Josef Albers — segundo o qual ele defende como percebemos as cores e como elas são governadas por uma lógica interna e ilusória. Albers compara a relação das cores em uma obra de arte com as notas em uma música, postulando que “ouvir música depende do reconhecimento dos intervalos entre tons, das suas posições e espacialidade”. As cores, ele explica, “se apresentam em fluxo contínuo, constantemente relacionadas às mudanças do entorno e às mudanças de condições”. Por este viés, a cor não é um valor absoluto, mas sim um valor relativo, codependente de seu contexto e sua percepção.

Pasta se referiu a suas próprias pinturas planas e não-objetivas como esquemas ou arranjos que vão se transformando com o passar do tempo. Para ele, as semelhanças delas com Volpi é definida nos seguintes termos: “não há nada a ser dito, mas algo a ser revelado”. Em seus esquemas espaciais pictóricos, as transições de cor são elementos usados ​​para criar um jogo – o movimento –, onde vemos o que ele descreve como “o próprio instante se fazendo”. As áreas de cor contrastantes ou complementares geram relações entre revelar e ocultar. Pasta está particularmente interessado no que ele chama de “fazer desaparecer”. “Estou conectado com a ausência, com a indefinição, com esta zona nebulosa, este lugar remoto de coisas sem nome. 

Essas “transições” [in-betweens] ou pausas também aparecem nas esculturas simples e concisas de Jobim, cuja obra também se vale do encontro de duas partes “como a criação de algo que não está nem em uma parte nem na outra”, nas palavras da artista. Os elementos aparentemente discretos de seu trabalho — ora pedra, ora concreto — geram, em três dimensões, uma linha-espaço, uma junção semelhante. “A linguagem também é feita desses elementos que, combinados, formam palavras”, afirma. Na obra de Volpi, Pasta e Jobim, esse meio-termo é melhor entendido como um instante suspenso, reconhecível em transições comuns, como entre o inspirar e o expirar, a divisão inatingível entre hoje e amanhã – a linha sempre fugidia entre o presente e o passado.

Contemporânea de Volpi, Lygia Clark chamou essas transições fundamentais de “linha orgânica”, durante uma palestra na Escola Nacional de Arquitetura em Belo Horizonte, em 1956. Essa “linha” onipresente — que ocorre no inanimado, como entre uma porta e seu batente; no humano, entre lábios que tocam uma bochecha; e no efêmero, entre o dormir e o despertar — está além da geometria, da arquitetura e da própria arte. Volpi, Pasta e Jobim tentam abrir essas fendas para investigar os mistérios que permeiam esses “entres”. Suas obras nos convidam, como espectadores, a entrar em um espaço inominável, onde, magicamente, pode caber o mundo.

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