Tolis Tatolas | MAB FAAP

TOLIS TATOLAS, Homo Paulista, 2019

O MAB FAAP abre no dia 27 de abril a exposição SP Urbanogram, com obras do artista grego Tolis Tatolas. A mostra, gratuita, é a primeira individual do artista no Brasil e reunirá desenhos, fotografias, um vídeo e uma instalação desenvolvidos durante o período em que esteve na Residência Artística FAAP – São Paulo, em 2019.

De acordo com a curadora, Evi Baniotopoulou, a exposição tem o objetivo de mostrar como a arte pode ser vista enquanto pesquisa científica, questão explorada pelo artista durante sua residência. “Isso decorre tanto de sua formação acadêmica como biólogo quanto de seu desejo de testar uma metodologia científica na criação de sua arte, por meio da sequência observar/documentar/analisar/compor”, explica.

Para ela, a exposição refletirá essa experimentação, lembrando um laboratório de pesquisa, onde as obras de arte são organizadas meticulosamente, apesar do caráter temporário, e estão prontas para uma inspeção minuciosa.

Levando essa abordagem para um novo nível, Tatolas examina como a cidade se desenvolve como uma combinação de elementos orgânicos e inorgânicos. O artista mostra como a natureza, os humanos e o ambiente construído se fundem em um só, encontram-se em um diálogo contínuo ou até mesmo disputam por dominância.

A principal inspiração do artista foi São Paulo, cidade que conheceu muito bem durante o período em que esteve na Residência Artistica FAAP-São Paulo, localizada na Praça do Patriarca.

O artista desbravou a cidade e conheceu regiões muito diferentes entre si, das áreas mais ricas às menos desenvolvidas, do centro às periferias. Assim, tentou explorar as realidades de uma megalópole em uma era de extrema urbanização, caracterizada pelo desenvolvimento tecnológico e informacional, grandes movimentos migratórios incontroláveis e mudanças demográficas, motivadas por circunstâncias sócio-políticas e econômicas.

Tolis Tatolas realizou sua pesquisa como parte de um amplo projeto em aperfeiçoamento desde 2009, no qual explora a distopia urbana intertemporal. Mas é a primeira vez que retrata uma cidade real e não imaginária. São Paulo, como uma das maiores do mundo, também representa para o artista o presente e o futuro urbano de todas as cidades. Deste modo, é local e global, tendo valor universal.

TOLIS TATOLAS, Sem título, 2019

Diferentes suportes

Os trabalhos apresentados na exposição são realizados em diversos suportes. Os desenhos compõem a maior parte, sendo divididos em duas categorias: obras feitas durante a estada do artista em São Paulo e obras desenvolvidas depois de sua partida e do início da pandemia de Covid-19, em 2020.

A primeira categoria compreende uma série de vistas aéreas imaginárias desenhadas como fotografias da cidade tiradas a voo de pássaro, que não representam lugares exatos, mas combinam elementos característicos do ambiente natural e artificial de São Paulo, como planejamentos urbanos, superfícies coloridas, pichos – o grafite idiossincrático da cidade, rios em cascata e vegetação. Esses e outros desenhos menores e individuais, que remetem a pichos saídos das paredes dos prédios, são justapostos à peça central da exposição, a SP Urbanogram (2019): desenho díptico com comprimento de 20 metros que ondula como um cardiograma ao longo das paredes do museu, sinalizando o caráter pulsante da cidade.

Outro grupo de desenhos, Sem título (2020), feitos após a sua partida durante o primeiro período de isolamento devido ao covid-19, representa a memória do artista sobre a cidade com influência dos acontecimentos globais recentes. Portanto, foram desenhados com menos detalhes e em cores mais escuras, o que cria um efeito claustrofóbico e também remete a negativos de filmes, representando imagens mentais impressas.

Fotografias compõem uma parte importante da exposição. Na série Homo paulista (2019), o artista concentra-se nas pessoas em situação de rua espalhadas por toda São Paulo. Ele busca tanto dar ênfase ao fenômeno exacerbado na cidade quanto mostrar como as pessoas se unem ao ambiente urbano, parecendo lesões de pele ou, em uma alternativa mais otimista, borboletas saindo de seus casulos.

Em seu vídeo Epithelium (2019), Tatolas continua a explorar a relação entre a população humana da cidade e sua camada externa, uma membrana protetora na qual se sentem confortáveis, mas à qual também tentam escapar. O epitélio é representado por papel, material comumente utilizado por desfavorecidos em situação de rua na cidade de São Paulo para apoio e proteção. A pilha de papéis amassados em um dos cantos da galeria configura-se como manifestação física dessa luta.

A exposição também apresenta sons periódicos da obra Suffocating (Sufocando, 2019), na qual o artista efetua sons guturais para indicar a impossibilidade de respirar, tanto em termos de extrema pobreza como também, quase que de maneira profética, em decorrência das complicações causadas pelo covid-19. Na obra SP Dreamin (Sonhando com SP, 2022), dois cobertores iguais aos utilizados pelas pessoas em situação de rua em São Paulo, com pichos feitos em tinta spray, estão pendurados acima do principal espaço do museu como lembrete da questão mas, também, como bandeiras sobre a persistência e esperança humanas.

A exposição como um todo visa indicar a inter-relação dinâmica entre os elementos orgânicos e inorgânicos da cidade e instigar seus espectadores a imaginar um futuro urbano que surja naturalmente a partir desse fenômeno e lidere todo o desenvolvimento a serviço dos habitantes urbanos.

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