Tirry Pataxó | Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage

A Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage inaugura, em 13 de fevereiro, às 19h, na Capelinha, a exposição Grafismo Emergente, de Tirry Pataxó. O artista visual carioca, de 34 anos, hoje aluno da EAV, cultiva a prática do desenho desde a infância e começou a fazer artesanato aos 12. A curadoria de Adriana Nakamuta engloba trabalhos que criam uma associação entre arte, história e meio ambiente, produzidos nos dois últimos anos.

“Tirry Pataxó traz para a arte contemporânea a tradição da pintura dos povos originários, unindo grafismos indígenas com a geometria abstrata do modernismo. Isso confere um novo significado para forma e cor na arte produzida atualmente”, observa Alberto Saraiva, diretor da EAV Parque Lage.

Filho de pai descendente do povo Potiguara, da Paraíba, e de mãe da etnia Pataxó, da Bahia, Tirry passou a infância expondo artesanato e vendendo as criações de sua família no Calçadão de Copacabana. Em 2022, após anos de embates com a fiscalização municipal, eles migraram para a área verde do Parque Lage onde passaram a expor seus trabalhos, acompanhados por outros indígenas.

Desde então, artistas e professores que frequentam o cotidiano da Escola comentavam sobre a qualidade do trabalho de Tirry. Em 2023, surgiu o convite por parte do diretor da instituição, Alberto Saraiva, para se candidatar a uma bolsa de estudos na EAV, no programa de formação Imersão em Artes Visuais. “Me disseram que teríamos aulas práticas e teóricas, e isso abriu muito a minha mente, porque eu já vinha trabalhando essa questão de evoluir a representação do grafismo indígena”, lembra Tirry.

Nestes dois anos de cursos na Escola de Artes Visuais, ele encontrou olhos atentos e ouvidos abertos à sua arte e sua história. Os mentores mais presentes foram Alberto Saraiva, que também dá aulas de pintura na instituição, o antropólogo Nathanael Araujo e o artista-professor Marcos Bonisson, que ministraram em parceria o programa de imersão. Outro mestre foi Luiz Pizarro, de quem Tirry foi bolsista-monitor nos cursos de desenho.

De acordo com a tradição indígena, os grafismos estão sempre associados a algum significado espiritual, mental ou físico. Tirry, que tem a prática do desenho e da pintura desde criança, expandiu seu repertório estético através dos estudos na EAV, até chegar a uma arte própria: “Isso nem fui eu que percebi, mas outros amigos e artistas que acompanham o meu trabalho. O diretor (Alberto Saraiva) me falou que o que eu faço hoje é uma arte nova, é algo só meu. Aí comecei a perceber que estava nascendo uma linguagem diferente”, conta Tirry. O artista afirma que esse processo de desdobramento na linguagem dos grafismos também vem sendo praticado por outras etnias brasileiras.

Para Adriana Nakamuta, trata-se de um grafismo que ganha mais feições geométricas e traz alguns padrões identitários indígenas, mas ao mesmo tempo dialoga muito com a arte contemporânea: “Claramente, isso tem a ver com a formação do próprio olhar do Tirry Pataxó que, de alguma forma, vai geometrizando essas imagens”.

Segundo a curadora, “a EAV está dentro do que talvez seja a maior floresta urbana do mundo. Os visitantes do Parque Lage vivenciam o espaço como um ponto turístico e instagramável, mas param pouco para pensar no quanto a Escola pode contribuir para as discussões de preservação e conscientização crítica ambiental. Me parece que o Tirry tem esse entendimento do que nos interessa em termos de agenda de discussão e reflexão”, pontua Adriana. “Acho que arte e meio ambiente estarão cada vez mais próximos daqui por diante. E acredito que, como indígena, como aluno e alguém que tem uma cultura que parte de premissas muito diferentes das nossas, o Tirry tem uma contribuição importantíssima a compartilhar.”

Outro aspecto ressaltado pela curadora é a permanência da pintura geométrica com novas bases de discussão: “Vejo que a geometria e a abstração seguem presentes na contemporaneidade, mas já não integram as pautas de debates como nos anos de 1960 e 1970. Não é mais uma luta para criação de espaço ou disputa entre figurativo e abstrato. Esse geométrico não é projeto de vanguarda. No caso de Tirry, está na força identitária de construção e delimitação de pertencimento ao universo da arte contemporânea”.

 

 

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