Táticas de Desaparecimento | Paço das Artes

Depois da exposição “Limiares” de Regina Silveira, na inauguração do Paço das Artes em 25 janeiro do ano passado (interrompida em março devido a pandemia, retomada no mês de outubro e
encerrada em 20 de dezembro de 2020), a instituição que pertence à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo – e tem patrocínio máster da Youse –, reabre suas portas no próximo dia 19 de fevereiro com a mostra “Táticas de Desaparecimento”. Esta será a primeira exposição da Temporada de Projetos 2020 um dos mais longevos e importantes editais de arte do país, que está completando 25 anos de existência.

“Táticas de Desaparecimento” de Nathalia Lavigne, curadora selecionada para esta edição da Temporada, trata de uma noção de desaparecimento refletindo como tal prática pode ser interpretada como uma atitude estratégica no atual contexto. A mostra apresenta obras de Aleta Valente, Maryam Monalisa Gharavi, Nino Cais, Regina Parra, Sallisa Rosa e Thiago Honório. Em tempos de discursos autoritários e mecanismos de vigilância de tecnologias imperceptíveis cada vez mais presentes, resistir a formas de controle sobre corpos e identidades torna-se, muitas vezes, uma atitude tática necessária. Como se manter invisível para não desaparecer é uma noção que permeia o recorte na produção desses seis artistas.

Muitos dos trabalhos nascem ou se relacionam com o universo das redes ou das imagens técnicas, embora a noção de desaparecimento também seja tratada de uma forma mais ampla. “Há desde uma discussão no campo da tecnologia sobre o desaparecimento dos arquivos, considerando tanto a impermanência dos dispositivos, exemplos de censura em redes sociais ou uma invisibilidade estratégica adotada contra práticas de vigilância, a processos de autorrepresentação como performance, pensando de que forma uma visibilidade constante pode gerar um processo contrário de negatividade e apagamento”, afirma a curadora.

A invisibilidade nas redes sociais é abordada, por exemplo, pela iraniana-americana Maryam Monalisa Gharavi em BIO, obra de net art que deu origem a uma publicação. O trabalho nasce de uma experiência na qual a artista atualizou sua biografia no Twitter diariamente ao longo de um ano ao descobrir que essa era a única parte não-algoritmicamente calculada que armazena dados do usuário.

Aleta Valente, que explora a autorrepresentação como performance em uma produção que acontece essencialmente no Instagram, lida com questões semelhantes. A artista já foi alvo de ataques virtuais e dois de seus perfis foram removidos por excessos de denúncias. Tal episódio se relacionada a questão da censura a partir do controle algoritmo do que é considerado nudez ou fora dos parâmetros aceitos pela “comunidade”, como a rede define, atingindo trabalhos artísticos denunciados e removidos.

A eliminação desses arquivos mantidos em redes perpassa indiretamente o trabalho de Nino Cais. O artista já deletou um antigo perfil no Instagram que mantinha um forte diálogo com sua produção artística. Os autorretratos escolhidos para esta exposição lidam com uma dualidade semelhante entre a superexposição e a invisibilidade no limite no desaparecimento. Ao se fotografar misturandose a objetos domésticos, o artista explora os limites entre uma identidade construída com elementos de uma esfera privada essencialmente íntima, mas que ocultam informações essenciais, como o próprio rosto. Além dessa série, o artista apresenta também uma instalação inédita concebida para a mostra.

Regina Parra trata de questões semelhantes ao reproduzir a própria imagem em obras que discutem o corpo como objeto de controle e violência. Na série Mise-em-scène (2009), a artista realiza pinturas a partir de imagens suas capturadas por câmeras de vigilância, em uma situação encenada para parecer espontânea.

Em “Identidade é Ficção”, a artista Sallisa Rosa usa a paródia e a ironia ao tratar de um imaginário sobre culturas indígenas repleto de distorções e estereótipos. Partindo de sua experiência em contextos urbanos, ela se fotografa em situações que misturam indícios de outras eras e elementos descontextualizados, como um telefone celular prestes a ser usado como alimento ou um dinossauro artificial que remete a tempos primordiais.

Por fim, complementa o conjunto uma instalação de Thiago Honório que nasce de um projeto desenvolvido de forma colaborativa no Instagram, apresentado pela primeira vez nas redes sociais do Paço das Artes em maio de 2020. A partir de uma coleção iniciada pelo artista de luvas de inverno encontradas nas ruas, postando também as imagens na rede, ele começou a receber inúmeras fotos da mesma situação. Quase todas as vezes um único par é encontrado, evocando uma série de perguntas sobre as razões para terem sido deixadas e por quem. O objeto perdido e a conexão
gerada a partir deste vestígio sugerem uma discussão sobre a impossibilidade de desaparecer sem deixar rastros.

Durante o ano de 2021 haverá uma programação paralela, ainda a ser definida, em comemoração aos 25 anos da Temporada de Projetos. Também está prevista para o mês de maio a abertura da segunda exposição com outros nove projetos selecionados para a Temporada, dos seguintes artistas: Amanda Mei, Ana Caroline de Lima, Bruno Faria, Fábio Menino, Fernando Soares, Gabriel Torggler, Higo Joseph, Rodrigo Linhares e Simone Moraes.

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