Soslaio – Carlos Fajardo | Galeria Marcelo Guarnieri

A Galeria Marcelo Guarnieri tem o prazer de apresentar, entre 11 de novembro de 2020 e 15 de janeiro de 2021, “De soslaio”, primeira exposição individual do artista Carlos Fajardo na sede da galeria em São Paulo. A mostra reúne obras produzidas entre 2017 e 2020, sendo a maior parte delas feitas em diálogo com o espaço da galeria, concebidas especialmente para a exposição. Em “De soslaio”, Fajardo dá continuidade à investigação que desenvolve há mais de cinco décadas sobre as relações espaciais entre o corpo, o objeto e a arquitetura, realizada nesta ocasião através do trabalho com materiais reflexivos, transparentes e luminosos. A partir das diferentes escalas das três salas da galeria, fotografias e esculturas em vidro, espelho e tecido se articulam no espaço, ativando percepções sensoriais do espectador que pode ser a um só tempo o observador – através das frestas – e o observado – através do espelho. O sentido da visão é convocado na exposição não apenas pelas obras, que examinam aspectos relacionados à formação e multiplicação da imagem, seja ela fotográfica ou virtual, mas também como enunciação em seu título formado por uma palavra que alude ao desvio do olhar. Potenciais desvios acompanham o espectador em seu percurso pela mostra, rodeado por um material como o vidro, tão frágil e ao mesmo tempo tão forte em sua constituição, sobretudo intimidador por sua capacidade de revelar a nossa própria imagem. A primeira sala, a menor das três, recebe um conjunto de cinco trabalhos que são também os menores da exposição. Encostados na parede e dispostos na altura do olhar, são compostos por fotografias e vidros laminados coloridos e transparentes de 60 cm. A sobreposição dessas superfícies em um determinado ângulo de inclinação produz o efeito de multiplicação de cores e planos, permitindo ao espectador acessar uma terceira dimensão. A obliquidade que orienta a montagem destes e de outros trabalhos formados por placas de vidro, surge na segunda sala sem o apoio das paredes, ao menos fisicamente. É o caso da peça em que quatro placas retangulares se sustentam por uma estrutura quadrangular em suas extremidades superiores, formando um espécie de paralelepípedo semi-aberto, independente no espaço.

A parede, no entanto, ainda é parte do assunto. Um corte retangular atravessa aquela que serve de divisória entre a segunda e a terceira sala, permitindo ao espectador uma visão discreta e particular das obras apresentadas ali, principalmente daquela que ocupa a outra extremidade do ambiente.

O jogo entre transparências e opacidades se repete aqui, já que após percorrer os quatorze metros que separam as duas extremidades da sala, o olhar encontra a fotografia de um quarto – o mais íntimo dos ambientes domésticos – iluminado pela luz natural de uma janela aberta, onde é possível apenas vislumbrar, por detrás de uma cortina translúcida, uma cama desfeita. Ao filtro da cortina, que perde a qualidade tátil de sua textura porque transforma-se em imagem, Fajardo adiciona duas placas de vidro colorido, o que acaba fazendo com que a imagem mais nítida ali seja a do próprio reflexo daquele que observa a obra.

Se através daquela fresta na parede a mirada era discreta e distante, o encontro com as peças nessa última sala requer um espectador mais desinibido. Devido a suas grandes dimensões, as três peças móveis que dividem o espaço com outras três fixas que se encostam na parede, produzem uma relação mais direta com o corpo e convidam ao embate frontal. Distribuídas pela sala, amplificam o espaço, multiplicando reflexos nas inúmeras combinações que podem ser geradas a partir de suas possíveis movimentações.

Carlos Fajardo nasceu em 1941 em São Paulo, onde vive e trabalha. Sua obra tem uma presença relevante no panorama da arte brasileira assim como sua atuação de mais de 40 anos como professor. Ao longo de sua carreira, participou de diversas exposições importantes no Brasil e no exterior, dentre as quais Jovem Arte Contemporânea, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), em 1967, organizada por Walter Zanini. Participou das 9ª, 16ª, 19ª, 25ª e 29ª edições da Bienal de São Paulo, respectivamente em 1967, 1981, 1987, 2001 e 2010. Representou o Brasil na Bienal de Veneza em 1978 e em 1993. Com Nelson Leirner, José Resende, Geraldo de Barros, Wesley Duke Lee e Frederico Nasser integrou, de 1966 a 1967, o Grupo Rex. O grupo questionava as instituições e o modus operandi do sistema de arte por meio de intervenções, publicações, palestras, projeções ou encontros. Em 1970 fundou junto a José Resende, Luiz Paulo Baravelli e Frederico Nasser a Escola Brasil, um “centro de experimentação artística dedicado a desenvolver a capacidade criativa do indivíduo” que foi importante não só na formação de muitos artistas brasileiros, mas também no amadurecimento das discussões sobre ensino e aprendizado de arte no país.

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