Sonia Paiva | Referencia Galeria

Ao longo dos últimos quatro anos, a artista visual Sônia Paiva se dedicou a estudar sobre o labirinto e os temas que dele derivam como, a neurociência, a matemática, e etnomatemática, as relações entre pessoas, as tradicionais técnicas de bordado e patchwork, estamparia e cerâmica. Os resultados dessa intensa pesquisa podem ser conhecidos na mostra “Arte volante em narrativas errantes”. A mostra, que será inaugurada no próximo sábado, 16 de julho, a partir das 17h, na Referência Galeria de Arte, traz ao público a mais recente produção da artista materializada em telas de patchwork e porcelanas estampadas com imagens criadas e retrabalhadas em múltiplas combinações.
Para Sônia Paiva, a arte e seus processos têm como função dar suporte à existência humana. “Criando me crio e a minha produção mantém os traços da experiência humana, como forma de transformar essa experiência em conhecimento”, afirma. Além de artista multimeios, Sônia Paiva é uma multiartista que atua nas mais diferentes áreas do conhecimento, transitando entre as artes plásticas e as cênicas. Como professora da Universidade de Brasília, criou e coordena o projeto de extensão continuada Laboratório Transdisciplinar de Cenografia. É também curadora da mostra dos Estudantes na Quadrienal de Praga de junho de 2015. Seus estudos extrapolam o campo das artes e se servem das outras ciências para dar maior amplitude a suas pesquisas.
“Você só pode se encontrar se você estiver perdido. Essa é a primeira regra do labirinto. Se você pensa que está perdido… é porque você está procurando por algo. Se você está procurando por algo… é porque você sabe o que você quer. Se você sabe o que você quer… Você já está à frente e sendo seguido por um bando de pessoas malucas”.
Conversa de WhatsApp entre Louise Lucena, bailarina, Patrícia Meschick, designer, e Sônia Paiva, artista.
“Quão fundo você quer ir na toca do coelho?” Entrar no mundo de Sônia Paiva é como entrar no labiríntico mundo de Alice, de Lewis Carrol. Quanto mais fundo se vai, mais fundo se entra no universo da artista. Alice para Sônia Paiva é a obra máxima do louco que se busca entender. A partir dessa imagem, surgem novas imagens que dão uma visão da “criança vitoriana”, personagem receptáculo dos desejos e projeções de uma sociedade insana, que não consegue encontrar respostas aceitáveis para um mundo em constante transformação. “O ponto de partida é o universo da criança, onde tudo é possível e não existem barreiras de aprendizado”, diz.
A pesquisa de Sônia Paiva se desdobra em quatro eixos. O primeiro, cria os elementos narrativos, multifacetados, hipermidiáticos e errantes. São os suportes para encaminhar o observador-sujeito através do labirinto de ideias que é a existência humana. O segundo, o desenvolvimento dos meios para a materialização das ideias, faz parte dos processos de composição das narrativas errantes. Neste eixo, estão os patchworks, as costuras, os bordados os desenhos. O terceiro, redefine o segundo por meio da tecnologia digital. A artista se apropria de sua produção e, a partir dela, transforma telas de patchwork em estampas digitais que ao serem recombinadas serão plotadas em tecidos e decalques criando novas imagens. O quarto eixo, a arte volante, surge como forma de dar à luz um produto acabado, pronto para ir para casa e ocupar um lugar na prateleira, ganhando uma nova forma de vida.
Na obra de Sônia Paiva é possível encontrar imagens de neurônios, labirintos, mandalas, mulheres deitadas ao sol e textos que se contrapõem e se complementam, criando estímulos que levam novas formas de observação do meio. O trabalho artesanal de bordado e costura serve de momento para a reflexão e a internalização de conhecimentos. O processo tecnológico traz a artista para perto do universo racional. Ambos, parte de uma tentativa de recriar o momento de uma sinapse, quando as células nervosas emitem e recebem estímulos de e para outras células, gerando uma comunicação entre elas ou a transmissão de ideias e sensações com velocidade de processamento infinitamente mais rápidas que a de um computador de última geração. “Assim, as redes de conexões de internet, o cérebro, a cidade e a criação – pictórica, literária e musical – são os labirintos que percorremos para entender as relações interpessoais, essas estruturas se transformam em laboratórios para que os outros nos percorram”, completa.

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