Sheila Kracochansky e Maria Luiza Mazzetto | Casa Galeria

Maria Luiza Mazzetto, o cordão e o pedúnculo, 2020

Maria Luiza Mazzetto e Sheila Kracochansky, em suas pesquisas atuais, resgatam um ambiente cujas fronteiras entre o ser humano e a natureza desvelam uma estranha familiaridade entre si.
Maria Luiza Mazzetto questiona a atuação humana no mundo perante o meio e a relação afetiva com as plantas. Sua prática aborda um universo de ficção acerca do mundo natural vivo. São construções ou apropriações de cenas que podem aludir a arranjos, florestas, fundos de mares ou o interior de um organismo vivo.

O trabalho “Welcome to my jungle”, 2021 (cujas partes simulam uma grande floresta), faz lembrar obras do século 19, do sublime romantismo. Sentimo-nos pequenos diante do espetáculo da natureza.

Seu objetivo é nos lembrar que as florestas estão sendo destruídas e o legado do homem, tal como se verificou com o romantismo, está sendo transformado em artificialidade. O próprio homem, mesmo em face da sua finitude, manipula biomas, cruzamentos de espécies vegetais, cria transgênicos e torna o mundo incerto e ambíguo.
O trabalho “Entre Terras e Céus”, “Bicho”, de 2019, é formado pelo agrupamento de pequenos objetos de formas orgânicas, moldados em biscuit e dispostos em acúmulo sobre um chão. Eles podem se parecer com fragmentos do mundo animal ou vegetal, mas podem também ser confundidos com pétalas, flores ou peles; ovos ou sementes; colmeia ou coral; unhas, dentes ou espinhos; galhos ou ossos; frutas, tumores ou órgãos; raízes ou artérias.

Vemos isso nos seguintes trabalhos: “O cordão e o pedúnculo“ (fotografia); “Sin violetas y mercedes (vídeo) e nos desenhos de observação do ”Alho”, 2018. Segundo a artista […] essas semelhanças nos fazem lembrar que seres vivos, animais ou vegetais, são feitos da mesma coisa, uma só matéria […]. Esse trabalho é uma metáfora para uma proximidade entre a vida e a morte. Quanto mais longa ou intensa é a vida, mais iminente é a morte.

Sheila Kracochansky, por sua vez, trabalha com parâmetros entre transparência e a opacidade, introduzindo valores intermediários. Esses valores são feitos por bordados e pedras em tecidos, como na Roma antiga onde a pintura e escultura se aproximavam da realidade do cotidiano. Uso do ladrilho e mosaicos, além de cubos de pedras ou vidros que produzem profundidade utilizada para contar histórias (nas igrejas).

O modo como a história é contada mostra ao espectador que algo milagroso e sagrado está acontecendo. Na série “Contos”, 2019, cada bordado conta uma história.
No trabalho “Claro da Noite”, 2018, sua pesquisa foi mais a fundo na questão da própria natureza das coisas. Na Grécia antiga os estoicos consideravam a grande ordem universal na exaltação da natureza. Viver em harmonia com a natureza permite estabelecer a estrutura do mundo.

No período em que morou em Lisboa a artista encontrou algumas pedras, já escolhidas e ordenadas como suporte, e por cima delas colocou uma seda. Durante a noite as pedras foram molhadas com uma infusão de chá, café e açafrão; formaram-se, dessa forma, veios no tecido, criando-se uma harmonia incrível na estrutura do mundo sensível e ações do homem. Dentro dessa pesquisa surgiu também o trabalho “Quase Branco”, numa fusão dos seres, sonhos, pedras e tecidos.

Essa mesma técnica é identificada nos trabalhos “Gêneses”, 2017, série da mitologia pessoal, e “Pedras das Dunas”, 2016. Nas observações do movimento do mundo, Sheila desvela os fenômenos da natureza, criando o trabalho “Fragmentos da cor”, 2019. A série das transparências dos tecidos transforma o mundo dos fragmentos em ordenação. Desse modo, ela vai além da singularidade da arte e dos suportes para construir formas no espaço dos tecidos.

CURADORIA: Loly Demercian

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