Sérgio Gurgel | Sobrado Dr. José Lourenço

Sergio Gurgel, Aliança, 2018 - Foto: João Luis

Em meio a tudo que estamos passando não poderíamos deixar de ficar ainda mais atentos à vida dos que vieram primeiro. É um tempo estranho que estamos vivendo, cheio de incertezas e que ao mesmo tempo nos faz lembrar a importância da vida, do cuidado consigo e com o outro. Nesse contexto, apresentamos uma exposição que fala, para além de outras coisas, de vida na sua fragilidade e na sua potência. Sérgio Gurgel revela uma obra que é construída a partir da relação  atenciosa, de cuidado e escuta de e com outras pessoas. Sérgio é um nome incontornável de sua geração no cenário contemporâneo das artes visuais em Fortaleza. Nascido em Acopiara, onde viveu até os 18 anos, adquiriu uma visão local peculiar e instigante sobre as experiências e memórias afetivas, guardadas ao longo da vida. Com um trabalho marcado por uma densidade estética incomum, o artista apresenta, a partir de 16 de janeiro de 2021,   Antessala, sua primeira exposição individual em âmbito institucional, que ocupará três salas com diversas instalações no segundo piso do edifício histórico do Sobrado Dr. José Lourenço, no centro de Fortaleza.

Antessala é um convite para adentrar o universo visual e poético de Sérgio Gurgel. Os objetos da mostra são potentes vetores de memória, deixam rastros de matéria afetiva e ajudam a narrar a história de personagens femininas que fazem parte da pesquisa e intimidade de Sérgio Gurgel. No limiar entre a realidade e a ficção, de profanação e sacralização.

Como em camadas a serem desvendadas, o percurso da exposição é atravessado por pinturas em diversas superfícies de objetos – espelhos, mobiliário, tecidos, vidros, e também por projeções de vídeo, vozes, cheiros, luz e sombra, revelação e mistério.

Sergio Gurgel, Piso Falso, 2017 – Foto: João Luis

As personagens que compõem o imaginário das obras são mulheres velhas, de rugas e personalidades marcantes. Como um explorador de armários e gavetas, ele se interessa pelas suas histórias e seus objetos violados ou esquecidos, os quais são ressignificados em uma narrativa que flutua entre a ficção e a realidade. Sua pintura em tons de cinza, em técnica grisaille, está simbolicamente no limiar entre luz e sombra, a vida e a morte. No limbo entre passado e presente, o cosmos visual de Sérgio Gurgel nos causa uma estranha familiaridade, uma alteridade refletida na dualidade dos espelhos. Assim o artista nos lembra da nossa finitude e narra nossa travessia existencial.

Na primeira sala, intitulada Recinto, Sérgio Gurgel apresenta seu projeto de longa duração que retrata três distintas mulheres de Acopiara, anônimas elevadas ao patamar de divas, num contínuo processo de observação e aproximação. Formada por recortes audiovisuais e fragmentos de seus corpos entintados em espelhos, a instalação é um turbilhão de reflexos e cacofonias – um altar peculiar para Madalena (93), Maria Matilde (85) e Maria das Neves (70) – embutidos de fé, excentricidade e costumes do sertão.

A segunda sala gira ao redor da figura e história de Dona Valneide (67), uma saga heróica de abismo e redenção, intitulada Nafrágil. Sérgio conheceu Valneide em Fortaleza, cuja trajetória é intimamente ligada com o desenvolvimento do centro da cidade, da qual ele se apropria para construir sua própria narrativa, permeada por transparências, referências do mar, vidros estilhaçados, luzes alucinantes e um universo olfativo envolvente.

O terceiro e último ambiente terá uma aspecto sala de espera onde uma estranha visão da sexualidade aflora em peles, pregas e dobras. Orgosma é uma instalação onde superfícies rugosas e viscosas se apresentam, onde a textura da pele envelhecida se confunde com a de uma lesma, onde bichos remetem ao sexo e festejam a “pequena morte”.

A exposição de Sérgio Gurgel anuncia, para além de muitas linhas invisíveis, a força da energia feminina que surge de narrativas moventes construídas e colecionadas pelo artista por meio do encontro com suas divas e heroínas, dentro de um imaginário afetivo singular. Ao se deparar com alguns trabalhos de Sérgio, aquele que vive a experiência da obra pode se sentir confuso ou se questionar sobre o que vê, ampliando o olhar para além do que está dado. Essa fissura, provocada pela dúvida ou pela confusão, é uma possibilidade de instaurar transformações no modo de ver e perceber o mundo.

Sergio Gurgel – Foto: Thais Mesquita

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