Scherpenberg e Bernardo Magina | Eav Parque Lage

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage inaugura, no dia 22 de julho, Yakecan, de Katie van Scherpenberg, e Jardim do céu, de Bernardo Magina, ambos professores em atividade na instituição. As mostras abrem o programa expositivo concebido pela nova comissão curatorial formada por André Sheik, Adriana Nakamuta e Xico Chaves, que pretende apresentar uma série de diálogos conceituais entre artistas que integram a Escola.

Na publicação Katie van Scherpenberg – Olamapá (Editora Gryphus, 2020), o museólogo e curador Alberto Saraiva, atual diretor da EAV Parque Lage, escreveu: “Em essência física, a pintura é constituída por uma série de acomodações de matéria que em determinado momento se consolidam em imagem. Contudo, além disso, a pintura tornou-se um modelo reflexivo de abordar o mundo, é linguagem… Um vocabulário em aberto. Eventualmente, um ou outro pintor, de modo específico, agrega a esse repertório novos signos comunicacionais. Para Deleuze, ‘cada pintor resume, a seu modo, a história da pintura’”.

Pois é ela, a pintura (e suas complexidades), o fio que conecta as exposições Yakecan e Jardim do céu, estabelecendo o diálogo poético entre Scherpenberg e Magina. A curadoria apresenta simultaneamente a produção de dois professores de gerações distantes que, apesar de integrarem o mesmo núcleo da EAV, pensam a experimentação no campo da pintura a partir de abordagens muito distintas.

As exposições Yakecan e Jardim do céu integram o Plano Anual de Atividades da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, que conta com o patrocínio do Instituto Cultural Vale por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Yakecan, de Katie van Scherpenberg

Uma sala pintada de cinza. Uma linha tênue riscada na parede remete ao horizonte. No chão, um grande leito de carvão e, sobre ele, uma camada densa de sal grosso. Uma luz difusa ilumina a instalação. Assim é Yakecan, que em tupi-guarani significa “o som do céu”.

Segundo Katie, o trabalho a ser apresentado nas Cavalariças se refere diretamente à intervenção Síntese, feita por ela no Rio Negro, no Amazonas, em 2004. Na ocasião, a artista criou cinco quadrados com sal branco sobre a areia preta às margens do rio, para ressaltar a relação entre estas cores: “Há uma beleza intrínseca entre o preto e o branco”, diz.

Esta mesma obra gerou um resultado totalmente inesperado: “Conforme a maré subia, trazia pequenos restos de madeira chamuscada que se depositavam sobre o sal. Eu entendi como um aviso do Rio Negro que, a seu modo, já denunciava claramente as queimadas da floresta”, revela Scherpenberg.

Completa a intervenção uma foto que registra a volta de Katie à casa de seu pai, na Ilha de Santana (AM), 20 anos após a morte dele. “Tomada pela ação do tempo e pela floresta, a casa estava muito escura. Quando entrei no cômodo que era o quarto do meu pai, fiz uma foto aleatória, sem enxergar em detalhes o ambiente. Ao revelar a imagem, percebi que havia enquadrado um morcego de uma beleza extraordinária”, relembra a artista. “Fiz um blow up desta imagem, que será plotada em uma das paredes das Cavalariças”.

Jardim do céu, de Bernardo Magina

Magina – que em sua prática enfatiza a pintura para além do quadro – define o trabalho concebido para ocupar as quatro paredes da Capelinha do Parque Lage como um afresco contemporâneo. De acordo com ele, o sagrado residirá na imaginação e no transporte para outra dimensão que pretende evocar. “É uma pintura imersiva que cria um percurso visual. A ideia é que o público ‘se perca’ ao contemplar os trajetos sugeridos. Quero trabalhar a percepção do todo, mas também os momentos distintos que o compõem”.

O artista revela que seu processo não é pautado por projetos cartesianos e que preza sua liberdade criativa: “Hoje há uma cena mais livre, a pintura contemporânea se beneficia de uma vasta gama de referências. Diferentes vertentes coexistem e não há um manifesto a ser seguido. Isso não significa que eu não pré-estabeleça uma distribuição espacial ou que não haja um pensamento cromático minucioso. Vou trabalhar tons azulados que remetam à contemplação do céu e à ideia de transcendência. Apesar de intimista, a pintura incluirá pontos de intensidade para atrair o olho do espectador”.

Sobre expor seu trabalho em diálogo com a obra de Katie, Bernardo afirma: “Admiro demais o percurso e a produção dela, e me move muitíssimo a oportunidade gerada pela EAV. É uma honra ocupar esse espaço onde me formei e hoje leciono, dando sequência ao legado inspirador de mestres da pintura, como o Mollica e o José Maria”.

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