Sandra Gonçalves | Centro Cultural Correios RJ

A artista visual e fotógrafa Sandra Gonçalves apresenta a exposição ‘Tessituras do Adeus’, com curadoria de Leticia Lau, no Centro Cultural Correios RJ, trazendo um conjunto de imagens impactantes que oferecem um mergulho profundo nas complexidades da vida e da morte. Explorando poeticamente o tema da transitoriedade, cada imagem é o resultado de uma meticulosa tessitura de experiências pessoais de despedida, onde Sandra Gonçalves funde suas próprias fotografias com achados digitais, criando composições híbridas que transcendem o tempo. O espectador é convidado a se aproximar  da narrativa profunda que emerge do diálogo entre elas.

Uma poética da fotografia sobre o tempo e a finitude

Esta exposição é mais do que uma série de fotografias da artista Sandra Gonçalves; é um ritual de despedidas. A partir de uma experiência pessoal, a artista, com seu olhar poético, transforma o cotidiano em um espaço de reflexão profunda sobre a finitude e a existência de forma universal. É um aceno para refletir sobre as fronteiras entre vida e morte, guiados por um conjunto de imagens que revelam a profundidade da experiência humana.

As ideias de Martin Heidegger, filósofo alemão (1889-1976), sobre a morte e a finitude têm uma influência marcante tanto na filosofia quanto na arte, permeando as obras de Gonçalves com uma intensidade particular. Heidegger nos ensina que a morte, embora não possa ser vivida diretamente, molda profundamente nossa compreensão da existência. Essa reflexão é um convite para confrontar nossa condição humana e viver de forma mais autêntica. A artista, através de suas composições visuais, propõe ao espectador este confronto, revelando as complexidades e nuances da fragilidade do ser e sua transitoriedade.

As fotografias apresentadas são registros de momentos fugidios em espaços hospitalares e outros cenários ressignificados, abordando a fragilidade, a resiliência e a persistência da espécie como formas possíveis de imortalidade. Sandra Gonçalves funde suas próprias fotografias com achados digitais, criando composições híbridas que transcendem o espaço e o tempo, propondo um diálogo entre as imagens.

Segundo Catherine Lepront, o processo criativo do artista é uma projeção do mundo interior para o mundo exterior, um movimento que a artista realiza com maestria ao sobrepor imagens e criar palimpsestos visuais plenos de memórias e significados. Cada camada de suas obras é uma tessitura de experiências e emoções, onde o olhar desacomodado é capturado pela teia da aranha.

A fotografia e a produção artística assumem, por vezes, a função de driblar o apagamento com seus instantes do tempo captados, são documentos de um tempo vivido, de gatilho para lembranças que se tornam sentimento e saudade.

Sandra Gonçalves é pesquisadora e docente no Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na área da fotografia e atenta para o conceito do tempo, um dos principais focos de sua poética artística. O tempo, nesta exposição, se relaciona com o tempo da fotografia, da vida, da aranha, da espera e da despedida. A artista recria um tempo suspenso, como na sua série anterior “Tempo Suspenso: entre o caos e a pandemia”, com imagens silenciosas, atravessadas pela dor da partida. Uma relação entre o efêmero e o perpétuo da imagem.

A exposição apresenta um conjunto de fotografias como uma “frase-imagem”, termo inspirado por Rancière (2003), aqui utilizado como imagens em um diálogo sequencial, sem conjunção. A frase-imagem proposta está dividida em três momentos: a metáfora da aranha e do tempo, formado pelas tramas tecidas por elas; imagens que narram as alterações, a espera, o caminho desconhecido e a fragilidade do ser; e fotografias que abordam a finitude e a sublimação, ecoando uma atmosfera etérea e espiritual.

“Tessituras do Adeus” amplia a ideia de exposição para uma experiência imersiva que nos força a confrontar nossas próprias mortalidades e legados. Sandra Gonçalves, com sua habilidade de tecer memórias e imagens, oferece ao espectador um convite a explorar o que significa ser humano. Através de suas fotografias, ela nos lembra de que, embora a vida seja efêmera, as conexões que fazemos e os momentos que capturamos têm o poder de transcender o tempo. (Letícia Lau)

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