Sallisa Rosa | MAM Rio

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro inaugura, no dia 13 de novembro, a segunda exposição do projeto Supernova, que promove um recorte da produção artística contemporânea no Brasil. Intitulada América, a individual da goiana Sallisa Rosa tem curadoria de Beatriz Lemos, Keyna Eleison e Pablo Lafuente. A partir da pesquisa que desenvolve sobre as relações entre colonialidade, memória e ancestralidade, a artista visual apresenta um projeto concebido especialmente para o museu carioca.

A proposição artística de Sallisa Rosa para a nova mostra parte de sua trajetória pessoal: “Sou neta de América. A minha avó, mãe de minha mãe, nasceu em 12 de outubro, dia que o italiano Cristóvão Colombo, enviado pela Coroa Espanhola, invadiu este continente e, por isso, chamaram-lhe América. Feita herdeira das histórias tristes e violentas, América é imensa, forte e farta. Vovó América é grande tal qual, imensa, continental”.

A artista, que participou do programa de residências do MAM Rio em 2020, conta que vem trabalhando a terra como um recurso ancestral: “Minha prática tem a ver com imagem, fotografia e vídeo, mas também com instalações e obras participativas. Tenho uma pesquisa sobre caminhos e tenho ido muito no sentido de trabalhar com a terra. Refletindo sobre arte e território, penso na materialidade deste elemento que guarda a memória de tudo que já passou e está registrado no solo: pessoas, bichos, plantas e rochas. Acho que a arte também passa por essa demanda de reinvenção e luta por território”.

A curadora Beatriz Lemos revela que Sallisa passou a explorar novas técnicas a partir do estudo para a individual: “Ela desenvolve uma relação muito forte com o barro e o adobe. Uma das obras centrais é a Urna da memória (2021), realizada em cerâmica, que materializa a lembrança de sua avó, simbolizando sua ancestralidade”. Em torno da peça, a artista dispõe 35 potes da série Abya Yala, também em cerâmica, que fazem alusão à sua idade.

Abya Yala, na língua do povo Guna, originário do Panamá e da Colômbia, é sinônimo de América. Significa terra madura, terra viva ou em florescimento. A expressão vem sendo usada como uma autodesignação de vários povos originários do continente em contraponto a América. Foi adotada pela primeira vez em 1507, mas só se consagra a partir do final do século 18, por meio das elites crioulas ao se afirmarem no processo de independência, em oposição aos conquistadores europeus.

Na obra de Sallisa, a cultura do barro começa no próprio corpo, a partir do manuseio: “Enquanto eu modelo o barro é o barro que me modela por dentro, num movimento de cultivo das raízes internas. Quando se arrancam as raízes o que fica no lugar é um buraco”, afirma Sallisa. “A terra é um pó mágico que protege as recordações em monumentos. É onde se firma o pé pra erguer o corpo. Se a minha herança é um fardo, eu vivo o destino pelo instinto e, para honrá-la, eu celebro a memória com o corpo”. 

A artista goiana conta que a palavra “arte” não encontra tradução em quase nenhuma língua indígena. Talvez porque os povos tradicionais não a separam da vida e, por isso, a arte abrange um universo de práticas que não necessariamente resultam em objetos, mas em ritualizar a vida.

Sallisa sublinha a participação da artista baiana Rose Afefé (Varzedo, 1988), a quem convidou para o processo de criação e montagem de América: Muitas pessoas me foram importantes nesse projeto. Para a instalação, trabalhei em parceria com ela, que foi fundamental na prática com adobe e bioconstrução”.

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