Rodrigo Martins | Central Galeria

Rodrigo Martins, Lírio, 2021 | FOTO: Rafael Salim

Há pelo menos um século e meio, o mundo vem se convertendo em uma irrefreável máquina de imagens. Da reprodutibilidade técnica moderna aos avanços e regressos de uma contemporaneidade marcada pela hiperexcitação e pelo estímulo constante, vivemos – e alimentamos, ainda que involuntariamente – um regime de produção e consumo incessantes de imagens de diversas naturezas e resoluções.

De todas as linguagens artísticas, talvez a pintura seja de fato aquela que mais tenha se mantido firme na maré contrária de um processo histórico que hoje aparenta ser irreversível. Em sua inegociável materialidade e demanda por presença, ela reafirma-se, constantemente, como um potente caminho inverso a tudo aquilo que o mundo contemporâneo nos sinaliza de maneira agonizante.

Realizado em um período de três meses deste ano – portanto, evidentemente, dentro da atual janela pandêmica que permanece indelével, quase interminável –, o presente conjunto de pinturas de Rodrigo Martins complexifica, por diferentes chaves, tais questões. Se, por um lado, no início da pandemia, nos vimos diante da iminente implosão de tantos dos vícios e idiossincrasias da vida social contemporânea, agora já vemos cair por terra inúmeros paradigmas que tentamos questionar. O período pandêmico, ao passo que propiciou revisões de toda sorte, também acentuou diferenças, abismos e, em larga escala, um regime de vida – portanto, também um regime da visão – marcado ainda por uma indigesta velocidade e saturação.

São muitas as possibilidades de caminhos a serem percorridos por um artista no plano pictórico. Da tela vazia ao espaço habitado, Rodrigo Martins conduz seu processo por meio de uma escuta
atenta e honesta do mundo que o cerca. Sem eleger a priori o objeto de sua pintura – uma cena cotidiana de sua vida íntima? Um utensílio prosaico e mundano sem funções aparentes? –, o artista identifica e acolhe atravessamentos diversos, filtrando os muitos sinais do seu entorno. Frequentemente, essa dimensão trivial dos seres e cenários das pinturas de Martins é evidenciada nos títulos das obras. Assim, Tampinha e Exaustor, para citar apenas duas, designam literalmente aquilo que representam: a pequena tampa de um objeto do próprio artista e o exaustor eólico visto no horizonte da paisagem da janela de seu ateliê. A transposição desses signos aparentemente prosaicos para o campo da pintura, no entanto, em nada se relaciona com uma espécie de “vale-tudo”. Por vias opostas, o que está em jogo no exercício de olhar do artista é um rigoroso desejo desierarquizante da primazia da visão, sempre tão rápida e incontestável em sua vontade vã de assimilar o mundo em direções práticas e acachapantes.

Tal dinâmica se dá, naturalmente, por vias ora mais explícitas, ora mais enigmáticas. Certo jogo com a escala dos trabalhos adiciona, também, uma interessante camada ao processo. Se a
sua Tampinha nos parece grande demais para ser apenas um singelo elemento de vedação de um objeto qualquer, seu Exaustor está contido em uma tela um tanto menor, em nada compromissada com a reprodução real da escala daquilo que se apreende do mundo.

Em comum, todas as pinturas evidenciam o gesto, a fatura, a mão do artista: somos lembrados mais uma vez da pintura enquanto construção, e não como mera reprodução do mundo. Muito se
fala – à certa exaustão e redundância, inclusive – sobre territórios de interseção entre figuração e abstração, entre realidade dada e construída, no plano pictórico. Na pintura de Martins, essa
zona de fricção se apresenta tanto como elemento estruturante de sua prática quanto como um aspecto óbvio, evidente demais para ser sublinhado. “Nada é mais abstrato do que a realidade”, já nos apontava o pintor italiano Giorgio Morandi na primeira metade do século passado.

Se muitas das presentes pinturas revelam-se como detalhes, fragmentos preciosos de cenas possivelmente maiores, o título da mostra tem origem justamente na composição mais densa e engenhosa do artista, Barong e ovelha. Nela, Martins parte da figura de Barong, importante personagem da mitologia balinesa – rei dos espíritos e das forças do bem –, cuja imagem é reproduzida em máscaras, figuras de devoção e afins na Indonésia e além. Barong nos traz de volta à pandemia, em sua força motriz de catapultar mudanças diversas, mas, também, em sua dimensão desconcertante de encontro com o inócuo, o vazio, o escuro. Complexa e irrefutável – ainda que radicalmente diversa nas esferas individuais –, a experiência pandêmica se reflete, na obra de Martins, não como ponto de inflexão, virada; mas, antes, como reafirmação do fazer artístico enquanto prática que, similar à sua crença na figura mitológica de Barong, revela sua capacidade unívoca de forjar um escudo contra o mundo. Seja para recolherse e afastar-se dele, e, então, ressurgir e responder a seus múltiplos e infindos estímulos, questões.

Na era das telas digitais, de visibilidades extremas e de dimensões esgarçadas, Martins volta seu olhar – sem grande alarde, sem pretensões ambíguas – a tudo aquilo que lhe parece fugaz, matéria evanescente, capaz de escapar à primeira vista e por isso mesmo digno de ser escavado, visto de perto, tornado pintura. À revelia de um mundo que seguirá a nos impor um brutal regime do olhar, violento em nossas retinas e imaginários, o artista, silenciosa e delicadamente, nos conduz ao que ainda resta – e há de restar – de poético, pueril, efêmero, pequeno. Tudo aquilo que, mais e mais, por todas essas razões, seguirá sendo importante.

// Victor Gorgulho

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