Roda de conversa mostra “Todo Cuidado é Pouco” | FoNTE

Clara Andrada

A exposição “Todo Cuidado é Pouco”, em cartaz no espaço FoNTE até o dia 30 de maio, destaca a dualidade do viver em risco e as explorações poéticas à flor da pele em sua síntese. Como parte da programação, será realizada dia 26 de maio, às 17h, uma roda de conversa com foco nas obras e processos de criação.

O encontro contará com a participação de Tálisson Melo, curador da exposição e os André Barion, Camila Leite, Clara Andrada, Fábio Menino, Juliana Cunha, Luís Teixeira, Manuela Costa Lima, Naomi Shida e Wiki Pirela. A proposta é apresentar ao público detalhes sobre o trabalho de cada artista e ampliar o diálogo sobre suas contribuições para as artes visuais.

“Todo Cuidado é Pouco” se estrutura a partir do conceito ambíguo de cuidado, tão fundamental e precioso para a nossa espécie, mas que também pode mascarar manipulação e controle. Em nome do cuidado pode existir muito perigo. A curadoria destaca a relação entre artistas, observando como cada obra dialoga com esse “cuidado”. Essa abordagem se reflete na variedade de técnicas e materiais utilizados pelos artistas visuais. A multiplicidade de suportes reforça a intenção de apresentar diferentes formas de expressão dentro de um recorte curatorial.

Para percorrer essa mostra, o público é convidado a entrar em contato com a dimensão orgânica-celular dos tecidos-tumores-criaturas de Camila Leite e as pústulas vulcânicas de Luís Teixeira abarcam, respectivamente, mapas de grandes relevos e paisagens siderais em colapso. Esses dois extremos traçam um vasto espectro do micro ao macro e vice-versa, dentro do qual nosso corpo se interpõe como meio de apreensão e criação da realidade, da casa, do lugar. Na carne-fractal-têxtil da obra de Camila abordam a delicadeza e a dureza de um trabalho que nasce do corpo se arrastando no tempo.

Nas representações de objetos pontiagudos, utilitários e perigosos, espalhadas pelo espaço, se evidencia a vulnerabilidade da pele.  São focos de afetação sensorial-existencial: as pinturas de Clara Andrade a partir da mesma foto de um canivete sendo manuseado, abrindo ou fechando; as de Fábio Menino que compõem um quase-ideograma estilhaçado com pregos enferrujados sobre pequenas abstrações; e ainda os anzóis, as cracas, a escama de peixe e a faca presentes nas esculturas e corpos-bordados de Naomi Shida.

Entre as produções estão as pinturas de Juliana Cunha, onde as mulheres se desdobram em uma arquitetura caótica, ora clausuradas, ora sem gravidade, dispersas e difratadas entre papéis de gênero — mães, filhas, recatadas, galinhas, feiticeiras, serviçais, jovens, velhas, monstras.

O trabalho de Andre Barion gera um portal entre ornamentação e codificação, gestos de mãos em desborde e uma costura sinuosamente precisa: a pele, a roupa, a linguagem, uma passagem dentro-fora. Outras fronteiras sem fixação se formam da linha materializada por Manuela Costa Lima a partir de pedaços de camas encontrados pela artista em contextos de descarte, reunidos e meticulosamente posicionados no chão para exacerbar seu estado de ruína e estabelecer uma zona onde o cuidado se torna condição imediata da experiência: é preciso caminhar com atenção.

Ao reunir artistas com diferentes trajetórias, a coletiva amplia o panorama da arte contemporânea e reforça a proposta de refletir a pluralidade da produção cultural na cidade de São Paulo.

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