Piso emborrachado é destaque em exposição que integra 1ª Semana de Arte do Rio 2026, no Centro (RJ).
Há sistemas que não precisam estar escondidos para se tornarem invisíveis. Basta que nos acostumemos a atravessá-los.
É dessa percepção que parte a pesquisa da artista visual Rennas Guimarães, atualmente em ocupação artística na Sala Multiuso do Centro Técnico de Artes (CTA) da Funarte, no Rio de Janeiro. Em Entre Sistemas: o corpo em fuga, a artista transforma um elemento cotidiano — o piso emborrachado industrial — em matéria para investigar como estruturas de repetição, circulação e controle atravessam silenciosamente a experiência humana.
Selecionada por edital para a ocupação, Rennas desenvolve na Funarte uma exposição-processo que reúne obras, instalações, experimentações e encontros com o público. Mais do que apresentar trabalhos concluídos, o espaço tornou-se uma extensão temporária de seu ateliê e um lugar de observação da própria pesquisa.
O interesse pelo piso não surgiu agora.
A artista começou a trabalhar com materiais industriais em 2005. Depois de um longo intervalo em sua produção artística, retomou a pesquisa entre o final de 2025 e o início de 2026, ao reencontrar trabalhos e fragmentos de piso emborrachado que haviam permanecido guardados por cerca de vinte anos.
O reencontro modificou também sua maneira de olhar para o material.
“Minha pesquisa não começa na borracha. Ela começa no chão”, afirma Rennas.
Criado para oferecer segurança, reduzir impacto, organizar circulação e receber continuamente a passagem dos corpos, o piso normalmente cumpre sua função sem exigir atenção. Rennas retira esse material de seu lugar habitual e o leva para a pintura, para o objeto e, mais recentemente, para instalações que ocupam o espaço e alteram a maneira como o próprio corpo precisa se posicionar diante da obra.
A repetição das chamadas moedas do piso cria uma espécie de grade. A pintura interfere nessa regularidade. Cor, falha, desgaste, deslocamento e escolha passam a introduzir diferenças em uma superfície concebida industrialmente para repetir um padrão.
Na pesquisa, porém, sistema não significa apenas restrição. A artista investiga justamente o que acontece dentro dele: como cada pessoa ocupa estruturas existentes, produz desvios, faz escolhas e reorganiza aquilo que encontra.
Quando o público passa a fazer parte da pesquisa
Esse aspecto ganhou uma nova dimensão durante a ocupação na Funarte.
Em Sistema de Jogos, Rennas dispõe módulos do piso diretamente no chão e estabelece uma condição inicial para a participação. A partir dela, cada pessoa escolhe onde interferir com a pintura e como reorganizar posteriormente as peças.
O que começou como uma experiência de participação passou a produzir uma nova questão para a artista.
Diante das mesmas condições, nenhuma configuração se repete. Alguns participantes constroem alinhamentos e simetrias; outros criam percursos, agrupamentos, interrupções ou novas regras.
“Passei muito tempo acreditando que uma pesquisa acontecia entre o ateliê e a obra. Na Funarte comecei a perceber que algumas perguntas só aparecem quando a pesquisa encontra outras pessoas”, diz Rennas.
As escolhas do público não são tratadas como complemento ou atividade paralela à exposição. Tornaram-se parte da investigação. A artista fotografa e acompanha as diferentes configurações produzidas durante os encontros, construindo um arquivo de decisões, aproximações e desvios que poderá gerar novos trabalhos.
Ao mesmo tempo, a pesquisa começou a ultrapassar a superfície das obras.
Em Território, uma extensa estrutura de piso emborrachado vermelho recebe a interferência da pintura azul, abandona a escala da parede, avança pelo chão e passa a disputar espaço com o corpo. O trabalho evidencia uma transformação que vem acontecendo na produção da artista: algumas questões já não cabem apenas na pintura e começam a exigir instalação, deslocamento e experiência corporal.
Essa expansão não significa o abandono da pintura. Ao contrário, ela permanece como gesto de interferência sobre estruturas originalmente produzidas para repetir.

