Renato Morcatti | Lemos de Sá Galeria de Arte

Lemos de Sá Galeria de Arte abre a exposição individual do artista Renato Morcatti, intitulada A Sombra das Ânforas, com texto curatorial de Marília Panitz. A mostra apresenta ao público um recorte de sua produção recente, em que a cerâmica se expande para além do objeto e dá forma a um universo próprio, povoado por figuras e narrativas em torno da experiência humana e de seus vestígios.

À sombra das ânforas

Um nome que emula certos contos antigos do Oriente Médio… com um toque proustiano… E uma obra que nos lembra certa tradição dos grandes recipientes indígenas confeccionados para guardar os corpos daqueles que seguiam para a eternidade… ou o néctar da vida: a água e os alimentos. Ela carrega a memória das volutas que adornam os prédios e dos esplendores carnavalescos, algumas das versões do barroco nos trópicos…

Há nela certa febre do ornamento, tão representativa da estética reconhecida na América Latina a partir da mistura cultural que nossa história forjou, resultando, por exemplo, em uma linha de pensamento que, em muitos sentidos, define nossa produção artística: a antropofagia oswaldiana.

Renato traz uma pendulação de duas vertentes do ato de construir. De um lado, a concretude da manipulação dos materiais pelas mãos – terra (argila, tijolo), metal (folhas, vergalhões, arames), instrumentos e técnicas (lápis, tintas, cinzéis, esmaltação, modelagem, escultura, desenho) – e a exaustão do corpo. De outro, o estabelecimento de uma simbologia cujos signos são revisitados ao longo das sucessivas séries que o artista desenvolve. A casa, a chave e suas pencas, a montanha, o ornamento tantas vezes visto, carimbado como marcação de pertencimento, a faca, o guardião, o ninho, o familiar e o puro estranhamento são as inscrições recorrentes nas suas narrativas poéticas à vida ao redor. Tão próxima e tão inalcançável. Objetos compostos por inúmeras partes entrelaçadas e por suas sombras.

Nas instalações, a cor da terra é eventualmente coberta por azuis e amarelos que recobrem a pele da cerâmica. E as ânforas recebem inúmeras incrustações e apêndices, às vezes figurativos, às vezes puro ornamento. São grandes montagens cujos nomes são pequenas histórias que se apoiam na infinidade de elementos de cada conjunto: O lugar que ocupo, também me habita | O que a paisagem insiste em guardar | Testemunho silencioso das narrativas familiares | Mãe de Nós | A casa que me Vê/A cor que me Guarda | Jardim das Margaridas | A sombra das ânforas

Entre eles, surge a unicidade hierática dos Guardiões, um e outro e outro… Figuras sintéticas em contraposição à abundância barroca das outras obras. Azuis. Corpos cujas cabeças abandonam a forma humana e modelam ferramentas para trabalhar a terra: ancinhos, picaretas, enxadas… São seres cujo fazer se incorpora à anatomia. Guardam, talvez, este saber que nos permite transformar as coisas da terra… o mais antigo saber do homem. Talvez o ícone de certa narrativa em aberto proposta pelo conjunto das obras…

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