Renato Morcatti | Galeria Periscópio

Renato Morcatti apresenta uma série de trabalhos inéditos na Galeria Periscópio, onde ocupa o Espaço Vitrine bem como o ambiente interno. Desta vez, o artista explora uma vibrante cartela de cores diferente dos tons terrosos das esculturas apresentadas na mostra “Pirajá”, que, entre 2017 e 2019, foi montada no Museu Nacional da República (DF), no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em BH, no Paço Imperial (RJ) e na Caixa Cultural São Paulo.

“A cor entrou para curar e trazer alegria”, conta Morcatti, que, como muitos artistas do país, desde o início da pandemia em 2020, se viu com uma agenda de trabalhos adiada e depois cancelada. Mas apesar disso, ele não parou. O artista aproveitou para fazer uma espécie de balanço. Revisitou projetos, deixou-se guiar pelas memórias e, assim, experiências que pareciam adormecidas vieram à tona.

O reencontro com as cores foi uma delas e sinalizou para a “chegada” de algo maior. “Ele trouxe a drag de volta pra minha casa”, relata Morcatti. O artista se refere à personagem Tara Wells, encarnada por ele na década de 90, em Belo Horizonte, e inspirada na figura homônima da série “Paraíso Maldito”. Na época, Morcatti performava como drag queen e sua estética abarcava referências da cultura pop.

Na produção televisiva, Tara já era uma construção como a drag de Morcatti. Afinal, esse nome foi adotado por Stephanie Harper (Rebecca Gilling), após ela sobreviver a uma tentativa de homicídio orquestrada pelo ex-marido. Salva por um ermitão que a encontrou jogada num lago e mordida por jacarés, Stephanie depois herda dele uma fortuna acumulada há anos, e se submete a uma série de cirurgias plásticas. Em seguida, ela retorna à vida social em Sidney (Austrália), emplacando uma carreira de modelo e com sede de vingança.

O artista recorda que se divertia muito com sua personagem drag, mas também encontrou muito preconceito e incompreensão. Ao retomá-la no presente, Morcatti observa que ela traz um potencial questionador ainda consistente e opera uma afirmação da vida e sua celebração. Referências a Tara Wells, assim, vão permear toda a mostra desde a instalação no Espaço Vitrine – onde será realizada uma performance no dia 30, a partir das 17h -, aos estandartes expostos no interior da galeria.

Para essa instalação, Morcatti relata que também se inspirou no romance “A Metamorfose” de Franz Kafka. “Eu reli esse livro recentemente, e várias coisas me chamaram atenção. Uma delas é que as transformações vão acontecendo não só no corpo do personagem, o Gregor Samsa, mas também na própria casa que ele habita”, pontua o artista. Isso o motivou a construir um trabalho que também pudesse incorporar um pouco dessa transição, por isso a escolha de usar o papel de seda em uma escultura chamada “Mariposa”.

“A ideia é que ali na vitrine, junto com diversos outros objetos que nos transportam para o ateliê de uma drag queen, a ‘Mariposa’ esteja mesmo bastante vulnerável porque ali bate sol e o material é delicado. Então, o trabalho também poderá se modificar, se transformando ao longo do tempo”, diz Morcatti.

De acordo com ele, a instalação vai trazer outras referências, como o jornal “O Lampião da Esquina”, criado durante a ditadura militar no Brasil e com a proposta de denunciar os assassinatos contra homossexuais, além de reivindicar visibilidade para os gays, as mulheres lésbicas, as transexuais e as travestis.

Nos estandartes, peças de grande proporção, algumas ultrapassando 2m de altura por 1,10 de largura, além das citações visuais à personagem Tara Wells, podem também ser encontrados processos, que, novamente, reforçam o interesse de Morcatti pela dinâmica da transformação. “Esses trabalhos são feitos em tecido, que eu vou tingindo depois alvejando. Eu vou brincando com essa matéria, dando nós, rasgando. Eu gosto de ver como a matéria vai se acumulando, ganhando uma dimensão no espaço e também se transformando”, afirma Morcatti.

Na série “GUIA” composta por 08 destes estandartes, Morcatti reproduz os azulejos de cerâmica pintada, “pele” que reveste grande parte da casa que habita, explica o artista. Em algumas destas obras o artista representa a planta baixa de sua casa, utilizando tiras rasgadas de tecido tingido de vermelho. O que também remete ao próprio título da exposição. “O termo ‘ilê’ é uma gíria no meio gay, conhecida no dialeto pajubá, para se referir a casa. E essa palavra vem da língua iorubá, na qual também significa ‘interior de uma casa’”, explica Morcatti.

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