Recortes | SIM Galeria

Julia Kater, Sem título, 2019

Obras de Abraham Palatnik, André Azevedo, Carmelo Arden Quin, Frank Ammerlaan, James English Leary, Juan Parada, Julia Kater, León Ferrari, Leonilson, Luiz Zerbini, Manfredo de Souzanetto, Marina Weffort, Rodrigo Torres

Ao olharmos nossa própria imagem no espelho sabemos que não nos bastamos no contorno; somos recortes, viramos a colagem de átomos e atmosferas distintas que nos cerca. No acordar de todos os dias e espreguiçar o corpo ainda cansado, sabemos que aquela pequena e vital ação não basta, assim respeitando mais do que a corpórea ação de alongar; nos tornamos no cotidiano a própria prorrogação de nós; temos a necessidade nas pequenas façanhas corriqueiras de nos marcar na existência mundana. A arte reverbera o que somos. Está nela toda perspicácia de fuga dos nossos íntimos delineados e se, somos uma espécie de recorte, ela também faz desse reflexo uma nova maneira de composição.

Nessas obras selecionadas cada uma rumina esse significado em sua própria característica e estado. Algumas obras se recortam pela técnica, como as obras de Abraham Palatnik que são criadas a partir de minúsculas tiras de madeira que quando reposicionadas criam expressões que manifestam, em um plano estático, percepção de movimento e da maneira que Frank Ammerlann recorta metais e dispõe uma nova poética sobre um chassi de madeira; Rodrigo Torres recorta cédulas e cria uma narrativa deliriosa a partir de uma organização cromática e fantasiosa. As fotografias recortadas de Júlia Kater representam uma nova ordem: o excesso de cenário e a falta de protagonistas nos torna espectadores de uma cena solitária e complexa; Leonilson pinta em uma lona e apresenta a obra diretamente na parede, sem a presença do chassi.

Sobre a quebra dos tradicionais formatos estabelecidos, as obras do artista Uruguaio Carmelo Arden Quin precursor do MADI – movimento baseado na extremação dos conceitos de “criação” e “invenção”, são marcadas por seus contrastes entre cores e por formas geométricas, sendo predominantes as formas irregulares; características essas que espelham no trabalho do Manfredo de Souzanetto com pigmentos naturais de solos brasileiros. Ainda na ruptura do suporte, James English Leary traz perspicácia no humor erguendo com cores primárias e formas familiares novos olhares sobre antigos signos.

Juan Parada cria um algoritmo pictórico com acréscimo geométrico material, ação que Luiz Zerbini recria com a retirada de negativos fotográficos de slides e reorganiza armando um diálogo com as “Macrocélulas” do André Azevedo.  Em contrapartida as obras da série “tecido” de Marina Weffort é a retirada de material meticulosa para gerar leveza enquanto Leon Ferrari acresce em minúsculas hastes de bronze a mesma suavidade formando uma escultura sólida, porém extremamente sutil.

Em todos os momentos cada cuidado do que somos feitos se reflete nas obras aqui apresentadas. Clarice Lispector diz que “o espelho é o espaço mais fundo que existe”. Estamos agora vagando nesse espaço, buscando esses limites, procurando entre o amanhecer e o descansar do corpo tudo que somamos para formamos a faceta de onde nos encontramos. Somos mais do que o reflexo porque não nos satisfazemos ali, tampouco nos bastamos nesse limiar. Somos, enfim, o espelho.

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