A megaexposição Raízes: Começo, Meio e Começo entra na disputa das atrações mais visitadas do circuito brasileiro do turismo histórico em 2024. O trabalho, que reúne mais de 200 obras da arte clássica à contemporânea assinadas por 80 artistas negros, emerge pelas tecnologias ancestrais, a partir do retorno às origens africanas.
Para as cosmovisões africanas, o tempo é sagrado com eventos recorrentes, como a infinitude associada ao algarismo “8” deitado, a soma dos números que formam o ano de 2024. O percurso da exposição, dividido nos cinco eixos temáticos “Origens”, “Sagrado”, “Ruas”, “Afrofuturismo” e “Bembé do Mercado”, transcende a lógica ocidental do tempo irreversível com início, meio e fim, e a cronologia progressiva do ano, mês e dia. Ao invés disso, a narratologia artística reconhece a ancestralidade fundamental para a compreensão e construção do presente e do futuro.
Baobá
A centralidade da exposição é o Baobá, considerado a árvore da vida pela cultura africana, personagem dos filmes “Rei Leão”, “Avatar” e “Madagascar”, bem como do livro “O Pequeno Príncipe”. Suas raízes profundas simbolizam os ancestrais e a memória da comunidade, enquanto o tronco representa as novas gerações enraizadas sob uma base sólida, para sobreviver às adversidades em direção ao ápice da vida. Os galhos, por sua vez, carregam o amadurecimento, e as folhas que caem retornam ao chão, para alimentar o ciclo da renovação contínua, já que fertilizam o solo para dar origem a novas espécies.
Na história das populações negras escravizadas entre os séculos XV e XIV, o Baobá também carrega o doloroso simbolismo da árvore do esquecimento. Antes de serem forçados a atravessar o Atlântico em navios negreiros rumo às Américas, os africanos eram obrigados a realizar um ritual de desenraizamento ao redor do Baobá, como uma tentativa de cortar seus vínculos com a terra de origem e suas memórias. A iniciativa garantia a submissão, despojando-os de sua identidade e pertencimento.
Esse fato lamentável embasa a cosmovisão africana, também decupada na exposição, sobre o qual os acontecimentos se desenrolam simultaneamente em espaços paralelos; na dimensão dos vivos e dos ancestrais; no Òrun, o universo espiritual, e no Àiyé, o mundo físico. Todo o processo doloroso do desenraizamento foi testemunhado e amparado pelos espíritos sagrados, que habitam os troncos das árvores.
Na contemporaneidade, o Baobá transmite a visão do ser humano, que se constitui a partir do “nós” ao invés do “eu”, a individualidade ocidental. Enraizar-se, na cultura africana, é um direito inviolável. Ao redor dessa árvore sagrada, as gerações se reúnem para compartilhar conhecimentos do interesse coletivo, a partir dos quais cada indivíduo se sedimenta no mundo. Preservar as memórias significa honrar e ser honrado pelos saberes que habitam os indivíduos.
Vanguarda
A exposição “Raízes: Começo, Meio e Começo” celebra, portanto, essas raízes profundas e a resistência africana . Com curadoria dos gestores culturais Jamile Coelho, diretora do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), e Jil Soares, a mostra transita pelas vanguardas, que moldaram as sociedades contemporâneas: a habilidade para registrar acontecimentos e narrar histórias; a intersecção com o misticismo; as expressões artísticas e a resistência sociopolítica dos grupos identitários.
Uma instalação, idealizada pelos curadores, transporta os visitantes para um gigante Baobá já na abertura. Projetada no eixo “Origens”, a obra é rodeada por narrativas visuais que reproduzem o inquebrável cordão umbilical do continente-mãe com os quilombos no Novo Mundo. O culto aos espíritos originários, entre eles orixás, nkisis e voduns, juntados aos caboclos encantados do Brasil, ocupam o território “Sagrado”, onde artefatos, músicas e danças ritualizam a força e a presença dos antepassados.
O ambiente “Ruas” enaltece o “pretuguês”, o neologismo sobre a influência da linguística dos povos pretos nas cidades de Salvador, Luanda, Montevidéu, Porto Novo, Havana e Lagos. A pintura do compositor também responsável pelo desenvolvimento do samba Heitor dos Prazeres (Rio de Janeiro, 1898-1966) captura a formação dos subúrbios no Rio de Janeiro ocupados população marginalizada, a partir da urbanização das cidades durante o intenso processo de industrialização do Brasil no governo do presidente Getúlio Vargas (1930-1945). Quadros do artista ilustram grupos de pessoas em rodas de samba em periferias, que evocam as memórias dos rituais religiosos na África.
O espaço “Afroturismo” promove o encontro entre ficção científica, tecnologia, realismo fantástico e mitologia para retratar a vida plena da população negra nas artes visuais. O eixo “Bembé do Mercado” emula as manifestações de resistência cultural e afirmação identitária afrodescendente. Celebrado desde o século XIX por conta da Abolição da Escravatura, o “Bembé do Mercado” é uma festividade que mescla elementos da religião católica com práticas e rituais de matriz africana, especialmente ligados ao culto aos orixás.
“Raízes: Começo, Meio e Começo” também reverencia o princípio dinâmico de todas as coisas de Exu, o orixá regente de 2024. A produção é assinada pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) em parceria com a RCD Produção de Arte e apoio do Instituto Ibirapitanga. O projeto expográfico é da cenógrafa Gisele de Paula e a identidade visual é do urbanista M.Dias Preto.