Portinari Popular | MASP

O MASP apresenta a exposição Portinari Popular, com cerca de 50 obras de Candido Portinari (1903-1962) que abordam temas e tipos populares. A exposição apresenta um novo olhar sobre a produção do artista, propondo uma revisão que se opõe a leituras que privilegiam a compreensão de sua obra desde um ponto de vista formal e sempre em comparação com a pintura modernista europeia. Em Portinari popular, são explorados conteúdos sociais, tais como, manifestações políticas, o cotidiano dos trabalhadores e representações de tradições culturais brasileiras, como festas populares, brincadeiras típicas e bonecas karajá.
Portinari é um dos mais importantes e polêmicos artistas brasileiros do século 20. Boa parte de sua obra coloca em evidência personagens populares. São trabalhadores em suas diversas atividades (o lavrador de café, a lavadeira, o seringueiro, o garimpeiro, o músico, o jangadeiro, o operário ou o estivador), figuras populares (o cangaceiro, a baiana, a boneca karajá), em diferentes contextos (na favela, em Brodósqui, sua cidade natal) ou em trânsito (migrantes, retirantes, despejados). Vemos também crianças engajadas em brincadeiras e cenas de festas de São João ou de casamentos na roça. Entre os retratos feitos por Portinari de personagens populares, a exposição incluirá a colona, a baiana, a mulata, a índia, o cangaceiro, o mestiço, e um intelectual — Mário de Andrade, interlocutor importante do artista e primeiro grande intérprete de sua obra.
O MASP tem um histórico importante em relação ao artista e sua obra, que remonta às primeiras exposições do museu. Em 1948, um ano após sua inauguração, o MASP realizou uma grande retrospectiva do pintor, caracterizado de “tropical e popular” nas palavras de Pietro Maria Bardi (1900-1999), diretor fundador do museu e grande entusiasta da obra de Portinari. Parte da crítica da época acusou o artista de ser “pintor oficial” mas a exposição atraiu enorme público, em grande parte ainda não familiarizado a museus. Hoje, no Brasil, em tempos de internacionalização e mercantilização da arte contemporânea e do grande reconhecimento das vontades construtivas e de seus desdobramentos na história da arte do século 20 (concretismo, neoconcretismo), a obra de Portinari merece ser revisitada e revista, para além do debate sobre “pintor oficial” e “pintor genuinamente brasileiro”.
O MASP possui 18 obras do artista que, até hoje, estão entre as que despertam maior interesse do público. Além de obras do acervo do MASP, Portinari popular apresenta obras de instituições públicas e coleções particulares e reconstitui um projeto expográfico de Lina Bo Bardi (1914-1992), elaborado para a mostra do MASP de 1970, dedicada ao artista. A expografia elaborada pela arquiteta é composta por uma estrutura simples, de pilares que permitem grande mobilidade e circulação dos visitantes entre as pinturas. As obras são organizadas por temas, dando ao espectador um panorama de toda a obra do artista que revisitou as mesmas questões em diferentes momentos da carreira.
Esta exposição, de 2016, inicia um programa de revisão da produção de alguns artistas canônicos do modernismo brasileiro, como Tarsila do Amaral e Vicente do Rego Monteiro, a partir de conteúdos e narrativas relacionados a elementos da cultura popular brasileira que abarca discussões sobre raça, realidade social e identidade cultural do país. Nesse sentido, a exposição dialoga com outra mostra paralela do museu, A mão do povo brasileiro, que será inaugurada em setembro de 2016 e reencenará a mostra de mesmo nome, curada por Lina Bo Bardi em 1968, no MASP. Tanto Portinari popular quanto a nova apresentação de A mão do povo brasileiro são oportunidades para explorar outras concepções da história da arte, propondo narrativas múltiplas, diversas e plurais, resistentes aos discursos hegemônicos de tradições histórico-artísticos dominantes e eurocêntricos.
Portinari popular tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico; Rodrigo Moura, curador-adjunto de arte brasileira; e Camila Bechelany, curadora-assistente. Um catálogo será publicado por ocasião da exposição, com imagens das obras, documentos raros e textos dos curadores, bem como de Annateresa Fabris, Olívio Tavares de Araújo e Sergio Miceli.
No mesmo dia, abrirá a exposição Trabalho, de Thiago Honório, cuja temática é também comum na obra Portinari. A instalação é composta por ferramentas de mestres de obras que o artista coletou durante o restauro de um prédio histórico de São Paulo.

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