A exposição-performática MANDINGUEIRA marca uma década de criação da artista cearense Pedra Silva, travesti de pele marrom em retomada ancestral. A mostra, que chega ao Galpão Bela Maré (RJ) com curadoria de Eduardo Bruno, reúne obras, vídeos, instalações e performances que acionam caminhos, rituais, corporais e espirituais presentes em sua pesquisa.
MANDINGUEIRA propõe um mergulho nas zonas do encantamento, transformando o espaço expositivo em um campo de forças, um terreiro simbólico onde corpo, rito e matéria se entrelaçam em gestos de cura, oferenda e continuidade. A mostra nasce da pesquisa Criação M’Kumba, metodologia poética concebida pela artista a partir da escuta dos terreiros e das cosmologias afro-brasileiras, compreendendo esses espaços como territórios de aprendizado e invenção.
Entre instalações, esculturas, vídeos e ativações performáticas, Pedra faz da travessia uma prática espiritual e política. O corpo aparece como território de memória e transformação, evocando forças ancestrais que desobedecem às narrativas coloniais e reconfiguram a própria ideia de exposição.
A abertura contará com participações inéditas do Ébó de Fumaça. A ação, apresentada pela primeira vez em Fortaleza durante a abertura da exposição no MAC-CE, é um rastro da aparição “Defumação para Afastar o Alzheimer Colonial”. Criada por Pedra Silva em diálogo com seus irmãos de santo do Abassá de Omolu Ilé de Iansã, a performance funciona como um ritual de ativação da mostra e, desta vez, se expande em parceria com artistas do território do Rio de Janeiro.
O projeto conta com apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, por meio do 14º Edital das Artes, o mais tradicional do estado. O fomento permitiu estruturar uma equipe majoritariamente composta por pessoas negras, trans, travestis e mulheres, reforçando o compromisso político e ético que atravessa toda a metodologia da artista.
A mostra no Rio de Janeiro é resultado de um intercâmbio entre projetos artísticos da região Nordeste, com apoio da Funarte a partir do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, por meio do Galpão Bela Maré, espaço dedicado à difusão, produção, mobilização, formação e fruição das artes e das expressões culturais em suas diversas manifestações, articulando a produção artística periférica ao circuito da arte contemporânea do país.
A artista concebe o gesto de expor como um ebó coletivo, uma oferenda que mobiliza o público a participar do campo ritual instaurado:
“Te convido a mandingar por dentro de órgãos, sementes, águas, vísceras e barro. Expor como um ebó, como um presente que chama para a ativação de múltiplas percepções como uma oferenda para as invisíveis e as invisibilizadas.”
Em MANDINGUEIRA, Pedra Silva reencanta o espaço da arte, abrindo caminhos onde criação, fé, cuidado e ancestralidade caminham juntas.


