Paz Errázuriz | IMS Paulista

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A exposição inaugurou em 13 de outubro, dia em que o centro cultural reabriu ao público. Para visitar a mostra,é preciso agendar previamente pelo site.

O IMS Paulista exibe, desde o dia 13 de outubro, a retrospectiva da fotógrafa chilena Paz Errázuriz. Inicialmente prevista para o mês de março, a abertura da mostra foi adiada devido à pandemia de covid-19. A exposição inaugurou no mesmo dia que o centro cultural reabriu ao público.

Para visitar a retrospectiva, é preciso agendar previamente pelo seguinte site:sympla.com.br/imspaulista.Também é obrigatório o uso de máscaras, entre outras medidas adotadas para garantir a segurança de todos – público e funcionários – no centro cultural. (veja mais informações no serviço abaixo).

Primeira grande retrospectiva de Errázuriz, a exposição foi organizada pela Fundación MAPFRE – que a exibiu em Madri em 2015 –, em colaboração com o IMS. Por ocasião da mostra, o IMS lançou a edição brasileira do livro O infarto da alma, com fotos de Errázuriz e textos da escritora Diamela Eltit. A publicação já está à venda na loja virtual do IMS (mais informações abaixo).

A exposição apresenta um panorama da obra de Errázuriz, que começou a fotografar na década de 1970, em plena ditadura militar chilena. Com sua câmera, registrou os habitantes do país, sobretudo grupos que não se enquadravam nos padrões sociais. Em sua produção, que se estende até os dias de hoje, captou as contradições de sua terra natal.

A retrospectiva reúne cerca de 150 fotografias produzidas da década de 1970 até os anos 2010. Dividida em dez eixos temáticos, a seleção evidencia as relações de empatia e confiança estabelecidas pela fotógrafa ao longo de sua carreira.

Nascida em Santiago em 1944, Errázuriz começou a trabalhar como professora primária. Com o golpe de Estado, parou de lecionar. Na década de 1970, de forma autodidata, passou a fotografar. Em 1981, fundou a Associação de Fotógrafos Independentes (AFI), uma importante organização de profissionais, que documentava a resistência ao regime. Nesse primeiro período, registrou as ruas de sua cidade natal e também cobriu manifestações contra a ditadura, em especial as atividades do grupo Mulheres pela Vida. Duas das seções da mostra apresentam as imagens feitas nesse contexto.

Os registros de eventos políticos, no entanto, não foram o principal tema abordado pela fotógrafa. Com o tempo, Errázuriz optou pelo retrato como principal forma de expressão, mirando suas lentes em indivíduos cujas vidas eram formas de resistência às normas vigentes e ao conservadorismo do período.

Para realizar os retratos, a artista cultiva uma relação de confiança com os fotografados, retornando várias vezes aos mesmos cenários. Um dos locais que Errázuriz conviveu por bastante tempo foi o hospital psiquiátrico Philippe Pinel de Putaendo, a 200 quilômetros de Santiago, onde produziu dois ensaios emblemáticos de sua carreira: O infarto da alma (1992-1994) e Antessala da nudez (1999).

No primeiro, a fotógrafa retrata casais amorosos que se formaram, ao longo dos anos, no hospital. Com seu olhar singular, Errázuriz mostra os vínculos afetivos entre eles, evidenciando a individualidade dos sujeitos, sem deixar de questionar as estruturas do sistema manicomial e do próprio confinamento, tema crucial na sociedade autoritária em que vivia.

Posteriormente, as imagens foram publicadas no livro O infarto da alma, com texto da escritora Diamela Eltit, que ganha tradução para o português pelo IMS (mais informações abaixo). Anos depois, ela voltou ao hospital, onde produziu a série Antessala da nudez, na qual retrata os pacientes no espaço destinado aos banhos. Nas imagens, os corpos nus amontoados remetem à terrível experiência do Holocausto, em uma crítica feroz.

Nesse e em outros trabalhos, a fotógrafa reflete sobre sua relação com os retratados, evitando torná-los meros objetos de seu olhar. “Mostrar uma imagem indigna é uma traição. Tirar uma foto é muito atroz, muito agressivo; o ato de quem se deixa fotografar é muito valente. Há vários pactos silenciosos que você não pode trair”, afirma.

Outra série importante de sua carreira, também presente na retrospectiva, é O pomo de adão. Errázuriz registrou a rotina de transexuais que trabalhavam em bordéis de Santiago e Talca. Ela retrata o cotidiano das protagonistas, com imagens delas andando pelas ruas, preparando-se para o trabalho, maquiando-se e habitando seus pequenos quartos, numa rotina de resistência à constante violência policial à qual eram submetidas.
Nessa série, Errázuriz questionava a moral de uma sociedade extremamente autoritária, refletindo sobre os papéis de gêneros, a desconstrução do ideal de masculinidade e o próprio conceito de minorias, como afirma: “Eu reverto o termo minoria. Eles são definitivamente maioria. Os supersofisticados e superprivilegiados são, na verdade, a minoria.”
Em 1992, a fotógrafa começou um trabalho com a etnia indígena Kawésqar, que habitava a costa dos arquipélagos da Patagônia ocidental. Ameaçados de extinção, os Kawésqar viviam da pesca e da confecção de cestos. Em um primeiro contato, o grupo se recusou a ser fotografado, posição respeitada por Errázuriz. Após anos de convivência, ela conquistou a confiança dos membros da etnia, produzindo a série Os nômades do mar. A fotógrafa documenta o cotidiano do grupo e sua proximidade com a natureza, especialmente com a água. Nos registros, penetra em um mundo desconhecido, que também se encontrava em constante ameaça.

Aguçada em retratar os habitantes de seu país, Errázuriz percorreu sua terra natal, adentrando em ambientes que a moral conservadora da época vetava às mulheres. É o caso, por exemplo, do universo do boxe. Em 1987, a fotógrafa decidiu começar um projeto sobre o tema. Após algumas recusas, conseguiu acesso à Federação de Boxe Chilena, onde produziu a série A luta contra o anjo, também presente na mostra. Nas imagens, os lutadores são retratados fora do ringue ou prestes a iniciar o treino. As fotos mostram o cansaço, o esgotamento e a fragilidade dos atletas, opondo-se aos estereótipos masculinos.

A retrospectiva traz ainda outros trabalhos importantes de Errázuriz, como os registros de uma comunidade de cegos ou seus retratos de pessoas idosas nuas, presentes na série Corpos, que questiona os padrões de beleza propagados pela publicidade. Em todos, ela apresenta um olhar comprometido com os sujeitos, prestando atenção especialmente às formas de resistência do cotidiano, em uma sociedade privada de liberdades. “Fico feliz por ter permanecido no Chile durante a ditadura. Não foi fácil, mas, por outro lado, estava em minhas mãos organizar meu trabalho, minha maneira de viver. Isso me ajudou a clarear o pensamento e me deu coragem para fazer o que fiz como cidadã e artista”, afirma.

O infarto da alma: Por ocasião da retrospectiva, o IMS lançou a primeira edição brasileira do livro O infarto da alma, com fotografias de Paz Errázuriz e textos da escritora chilena Diamela Eltit. Publicado originalmente em 1994, o livro traz retratos que Errázuriz realizou de casais que se formaram no hospital psiquiátrico Philippe Pinel, na cidadezinha de Putaendo, no Chile. No volume, as fotografias são intercaladas com textos de Diamela Eltit, escritora, professora universitária e ativista chilena de destaque. A autora visitou o sanatório a convite de Errázuriz e, inspirada pela experiência, escreveu um texto no qual mistura ensaio, ficção, poesia e testemunho. A edição lançada pelo IMS tem novo projeto gráfico e uma nota final escrita por Miguel Del Castillo, curador da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista.

 

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