Paulo Bruscky | Nara Roesler Rio de Janeiro

Sendo a terceira exposição de Bruscky na Galeria Nara Roesler e a primeira no espaço do Rio de Janeiro, rec/rio terá três núcleos: trabalhos propostos para a cidade do Rio, mas nunca realizados, trabalhos criados no Rio e trabalhos produzidos especialmente para a exposição na Galeria Nara Roesler | Rio de Janeiro.
Um pioneiro da arte-xerox, da arte postal e da fax art, Paulo Bruscky, surgiu na cena brasileira no final da década de 1960, num dos períodos mais pesados de repressão política no país. Apesar do clima político adverso, ele enfrentou as estruturas autoritárias, expandindo as fronteiras da experimentação com humor e trocadilhos, realizando happenings e intervenções. Bruscky, como ele mesmo diz, nunca pediu permissão ao governo para fazer arte. Mesmo quando a consequência de sua atitude era a prisão. Embora muitos de seus projetos tenham vencido importantes competições, eles quase sempre eram censurados. rec/rio inclui mais de 50 dessas propostas criadas para a cidade do Rio. Algumas delas foram realizadas, como Fogueira de gelo, concluída durante a edição de 2010 da Bienal de São Paulo, mas a maioria permanece inacabada.
Em resposta a isso, a Galeria Nara Roesler está produzindo, pela primeira vez, a obra Tiro ao alvo. Proposta em 1971, durante o I Salão de Arte da Eletrobrás, a obra consistia em espelhos que refletiam uma luz que, por sua vez, se projetava e acionava um rádio como resultado final. Esta obra só pode ser ativada pelo público, ao brincar a tradicional brincadeira de criança.
Conhecido por sua participação ativa no movimento internacional da arte postal e pelas relações dinâmicas que estabeleceu com artistas internacionais, entre eles membros dos movimentos Fluxus e Gutai em Nova York, Europa e Japão, Bruscky é um artista que sempre se comunicou com o mundo. Em rec/rio, ele traz à galeria obras que foram criadas no ar. Durante viagens ao Rio e pensando no Rio. Uma espécie de comunicação consigo mesmo. Poema para VoAR é um poema em que dois aviões são soldados em um só. O artista também se comunicará com a população do Rio por meio de um dos seus famosos comunicados nos anúncios de classificados, publicado em 1º de julho de 2016 no Jornal O Globo, que as pessoas poderão trazer à galeria para ser assinado por Bruscky no dia da abertura.
Sempre contemporâneo, mas nunca óbvio em seu processo e criação, Bruscky nos brinda com um ‘nó’ no status quo, como nas “selfies” dos seus pés, em Pés de Bruscky I e II, ou em suas pinturas feitas com estalinhos/biribinhas (traques II). rec/rio traz ao Rio velhas lembranças e novos trabalhos, novamente conferindo profundidade e multiplicidade de camadas ao conjunto da obra do artista, que já abarca mais de quarenta e cinco anos e reflete, ao mesmo tempo, um envolvimento com uma estrutura artística local e com uma rede global filtrados e registrados por Bruscky em livros de artista, intervenções urbanas, performances, poemas visuais, registros em Super-8, classificados de jornal e esculturas ready-made. O artista transita por diversas mídias e frequentemente usa seu entorno como matéria-prima, o que faz com que seja impossível abordar sua produção como um conjunto unificado de obras. Pelo contrário, no cerne da prática de Bruscky há uma poética da experimentação, uma versatilidade de mídias e um interesse por processos de circulação e distribuição que se recusa a se ater a um só meio, forma ou movimento.

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