PAULO AGI | GRUTA

O artista sul-mato-grossense Paulo Agi apresenta, a partir de 11 de abril, na Gruta Espaço de Arte Contemporânea, a exposição Zamboada. Em sua primeira mostra individual em São Paulo, Agi exibe um conjunto de pinturas a óleo produzidas entre 2025 e 2026. As obras investigam a presença da fauna pantaneira em um território atravessado por tensões ambientais e pela ocupação humana.

A série dá continuidade à pesquisa do artista sobre as paisagens de seu estado de origem, Mato Grosso do Sul, envolvendo a reconstrução de memórias tanto concretas quanto imaginárias. Ao utilizar imagens da natureza, como nuvens e animais no campo, Agi cria obras que transportam o espectador para universos marcados pela vivência regional e por uma profunda memória afetiva.

Nas telas, animais surgem em cenas noturnas reveladas por fontes distintas de iluminação, desde fenômenos naturais como relâmpagos e fogueiras até dispositivos de monitoramento. A noite, central na proposta curatorial de Marina Schiesari, é a condição para tornar visível um ecossistema atravessado pela presença humana.

A influência de Manoel de Barros

As imagens são construídas por meio de um processo de raspagem sobre camadas de óleo. Ao remover a matéria da superfície, Agi faz emergir figuras definidas pelo contraste com o que chama de “fundo eterno do Pantanal”. A expressão, retirada de O Livro de Pré-Coisas, de Manoel de Barros, fundamenta a espacialidade das pinturas. Para o artista, a literatura de Barros não é apenas uma citação, mas uma base para pensar a profundidade das telas como camadas de tempo que precedem a própria imagem.

A vivência de Agi em São Paulo atua como um catalisador desse processo. A distância geográfica permite uma depuração das imagens, transformando o registro documental de arquivos e reportagens em uma elaboração pictórica onde a memória e o imaginário ganham protagonismo.

Vigilância e o olhar invasivo

Embora as pinturas retratem exclusivamente animais, a problemática da vigilância organiza a atmosfera da mostra. A iluminação que incide sobre os corpos sugere um território sob monitoramento constante, onde o contato com o selvagem é mediado por dispositivos de controle. A luz artificial retira o animal de seu estado de latência e impõe uma visibilidade que beira a intrusão.

Nesse ambiente, os animais são flagrados em momentos fugazes. A narrativa da exposição reside na tensão entre o direito ao isolamento das espécies e a necessidade humana de mapear e cercar o território. Sob o feixe de luz, revelam-se relações de mutualismo entre espécies que resistem em um ambiente permanentemente vigiado.

Zamboada e campo limpo

A mostra evidencia dois modos de paisagem que coexistem no Mato Grosso do Sul contemporâneo. De um lado está a ‘zamboada’, termo que designa a vegetação densa e a complexidade da vida selvagem. De outro, o campo limpo, área aberta para a monocultura ou criação de gado.

Nas pinturas de Agi, esse contraste aponta para um processo de fricção. A fauna aparece como uma presença persistente em um ecossistema em reconfiguração, no qual preservação e exploração seguem em disputa. Ao registrar os encontros noturnos entre os animais e as incidências de luz, Zamboada reflete sobre a permanência do selvagem diante da contaminação do território.

A exposição é apresentada pelo Ministério da Cultura e foi realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura e Governo Federal, com patrocínio da Imbil e realização da Ipê Produção Cultural e da Gruta Espaço de Arte Contemporânea.

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