A artista visual e brasileira Pàulla Scàvazzini apresenta duas novas exposições que marcam um momento decisivo em sua trajetória: a participação no duo show “Between Utopias and Abyss”, com curadoria de Maryana Kaliner, na Kaliner Gallery, em Nova York, e a individual Língua de Fogo com curadoria de Shannon Botelho, no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro.
Scàvazzini desenvolve uma pesquisa que tensiona os limites entre arquitetura, corpo e pintura, deslocando o gesto do plano bidimensional para experiências imersivas em que a tinta avança sobre as paredes e pisos, em instalações e site specifics. Diante disso, a artista propõe questionar como a percepção corporal do espectador pode ser modificada através dessa experiência sensorial e afetiva. Suas obras, marcadas por forte gestualidade e por um estudo aprofundado da cor, da luz e da composição, partem do imaginário botânico tropical para construir atmosferas que oscilam entre paisagem e ruína, articulando colapso ambiental e social à ideia de reinvenção. A dimensão sensorial também se estende aos títulos das obras, pensados como micro poesias sinestésicas — vento desértico; fogueira de sal; precipício, suspiro; tudo o que brilha ao norte e derrete em festa ao sul —, que convocam cheiro, temperatura e memória paralelamente ao encontro do olhar encontrar com a imagem.
Nesse contexto, as duas exposições compartilham eixos centrais de sua investigação: a pintura como gesto e performance; a exploração da escala – do íntimo ao arquitetônico -, a transformação da percepção espacial e sensorial do espectador e a construção de campos cromáticos intensos, que propõe simultaneamente destruição e regeneração. A partir de fragmentos de vegetação e elementos orgânicos, suas obras se transformam em manchas, campos de cor e atmosferas que tensionam a relação entre figuração e abstração, refletindo as complexidades de um mundo contemporâneo em constante metamorfose.
A artista comenta: As duas exposições partem do imaginário botânico tropical, em que paisagens se desfazem em manchas e campos de cor. Essa dissolução da imagem é também uma recusa em oferecer a paisagem de um mundo em colapso como consolo, como se a arte pudesse restituir ruínas. O que me interessa é uma pintura que permaneça nessa tensão, e que, por isso mesmo, precisa sair da tela para encontrar o corpo. É essa pintura que, a partir do meu corpo em movimento, avança sobre o espaço arquitetônico e convoca um encontro com os outros corpos que entram na sala.


