Ocupação Eduardo Coutinho | Itaú Cultural

O Itaú Cultural recebe no seu piso térreo a Ocupação Eduardo Coutinho. Formada por programação especial e com ferramentas de acessibilidade, trata-se de mais uma mostra do instituto para apresentar ao público a vida que gestou o artista homenageado, sua trajetória, processo de criação e obra. A curadoria é da equipe do instituto, formada pelos Núcleos de Audiovisual e Literatura e de Memória e Pesquisa, com cocuradoria do jornalista e pesquisador Carlos Alberto Mattos. Esta Ocupação tem parceria do Instituto Moreira Salles (IMS), detentor do acervo do cineasta.

“Nos vários módulos da exposição, o visitante poderá explorar aspectos importantes do cinema de Coutinho”, observa Mattos. “A potência da fala nos seus filmes baseados em conversas, por exemplo, ou o efeito da câmera sobre certos personagens. Ou ainda o permanente jogo entre verdade e representação na performance de quem se sentava diante dele numa filmagem”, prossegue ele, que também é autor de Sete Faces de Eduardo Coutinho, livro a ser lançado na abertura da mostra, em coedição da editora Boitempo, Instituto Moreira Salles e Itaú Cultural.

Trechos selecionados de filmes e depoimentos do cineasta expostos na mostra jogam luz em suas marcas inconfundíveis no cinema brasileiro dos anos de 1960 até a atualidade. “Algumas singularidades são destacadas, como os momentos de crise nas conversas entabuladas diante da câmera, a apresentação dos dispositivos de filmagem em cada documentário e as célebres performances musicais de seus personagens”, fala o cocurador.

Além disso, o espaço expositivo apresenta a cadeira em que Eduardo Coutinho sentava as pessoas que entrevistava em seus filmes mais recentes, como Jogo de Cena. Também serão expostas outras ferramentas caras ao cineasta, como a câmera principal das filmagens de Cabra Marcado para Morrer e sua máquina de escrever portátil.

Os eixos da Ocupação fiam o tecido de sua produção e criação filmográfica. Mostram, por exemplo, trechos de seus filmes. Entre eles, trabalhos como Cabra Marcado para Morrer, O Fio da Memória, Volta Redonda: Memorial da Greve e Peões. Estes são os mais políticos de sua obra e revelam dedicação na reconstrução de lembranças pessoais no bojo de experiências históricas. Ao mesmo tempo, o lugar abriga recortes inéditos de seu trabalho. Entre cadernos de anotações, listagens e textos escritos, a mostra apresenta o seu processo de criação, de pesquisa de personagens, ritos de trabalho e montagem de seus documentários.

A Ocupação também revela algumas de suas incursões como ator e realça a verve que tinha como ficcionista na relação com o teatro e a paródia, desde o início de sua carreira no cinema. Apresenta, ainda, produção do cineasta praticamente desconhecida. Por exemplo, os três primeiros filmes de sua carreira, realizados na década de 1950, nos tempos de estudante no Institut des Hautes Études Cinématographiques – Idhec, em Paris. São eles, o curta de ficção surrealista Le Téléphone, o documentário inconcluso Saint-Barthélemy e La Maison du Brésil, registro encenado do cotidiano da Casa do Brasil, onde ele estava hospedado.

Outro eixo revela a sua assídua presença no teatro durante a juventude, quando dirigiu Pluft, o Fantasminha em Paris nos anos de 1950 e trabalhou com Amir Haddad e Chico de Assis. No cinema, adaptou A Falecida, de Nelson Rodrigues, com o amigo Leon Hirszman, e aproximou Shakespeare do cangaço em Faustão. Nos seus documentários, estimulou a autofabulação dos personagens em busca de uma espécie de teatro da vida, conduta que seria radicalizada em As Canções, Jogo de Cena e Moscou.

O percurso da mostra iniciado por suas primeiras conversas, quando cresceu cinéfilo em São Paulo e depois foi estudar em Paris – passando pelo tempo que dedicou à televisão, quando fez documentários memoráveis para o Globo Repórter, nos anos de 1970 –, percorre essas múltiplas facetas do cineasta. Outra, bem pouco conhecida, é o interesse que tinha por citações e paródias manifestadas em filmes, textos e até dedicatórias.

Coutinho dizia que o som mais bonito que existe é a voz humana e é no eixo sobre a potência da fala que o público percebe o quanto ela era determinante nos seus documentários. É em torno das palavras que se desenrola o módulo “escritor acidental”, que revela quando, em determinado momento de sua vida, Coutinho deixou a escrita. “Já escrevi, como qualquer pessoa. Fui jornalista, não era bom escritor, mas escrevia. Há vinte anos que eu não escrevo e espero morrer sem escrever. As razões provavelmente são psicóticas”, disse sobre sua decisão. Mas, a contragosto, ainda redigia seus projetos e um ou outro texto. Sempre em sua inseparável máquina de escrever portátil.

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