Em 1955, o matemático John McCarthy cunhou o termo “inteligência artificial”. Desde então, e especialmente a partir do final dos anos 2000, esses sistemas passaram a permear a economia, a cultura, a política, os meios de produção e as operações militares em escala global. A exposição O Mundo Através da IA, que abre no Sesc 24 de Maio em 6 de agosto deste ano, propõe uma leitura histórica e crítica desse processo. A pergunta que a organiza é o que a inteligência artificial carrega e o que ela prefere ocultar.
Com curadoria do pesquisador Antonio Somaini, professor da Sorbonne e de Harvard, a mostra reúne cerca de 70 obras de 29 artistas de 15 países, organizadas em oito seções temáticas. Concebida e organizada pelo centro de arte parisiense Jeu de Paume, a exposição chega ao Sesc 24 de Maio com um conjunto de cápsulas do tempo produzidas a partir do contexto local e permanece em cartaz até 29 de novembro, com entrada gratuita. Em junho, outra versão da mostra foi inaugurada em Frankfurt, também com obras adaptadas às particularidades da região.
Entre os 29 artistas, há nomes do Brasil, da Alemanha, da Argentina, da Arábia Saudita, do Senegal, do Reino Unido, da França e de outros países. Os brasileiros ocupam lugar central na mostra com obras que ampliam e aprofundam os eixos curatoriais a partir de perspectivas específicas da produção e do pensamento local. A exposição aborda as infraestruturas físicas e humanas que sustentam os sistemas de inteligência artificial, o impacto ambiental de uma tecnologia frequentemente percebida como imaterial e as heranças coloniais que os algoritmos de reconhecimento visual carregam. Ao conectar passado e presente, a mostra evidencia como essas tecnologias emergem de dinâmicas históricas de poder que a velocidade do debate público sobre IA frequentemente ignora.
A peça de maior escala da exposição é Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500, de Kate Crawford e Vladan Joler. A instalação ocupa 12 metros e mapeia as conexões entre tecnologia e formas históricas de dominação e extração de recursos, evidenciando como essa lógica se atualiza na era digital.
Um dos potentes eixos da exposição é o mundo do trabalho. Por trás da promessa de automação, há formas de trabalho invisibilizadas – como a de quem passa horas rotulando imagens para que algoritmos aprendam a enxergar, ou a de quem modera conteúdo para plataformas que não reconhecem esses trabalhadores como parte de seu organograma. O filme imersivo Acapulco (2022–2024), de Bruno Moreschi e Pedro Gallego, investiga justamente esses bastidores. O trabalho dialoga com a história do Amazon Mechanical Turk, nome que remete a um autômato do século XVIII que fingia jogar xadrez de forma autônoma, mas tinha um humano escondido por baixo. A plataforma da Amazon batizou com esse nome os trabalhadores que executam, por remunerações irrisórias, as tarefas repetitivas que ensinam as máquinas a “enxergar”.
Giselle Beiguelman está presente com duas obras. Beleza Corrosiva (2025) traduz em imagens o impacto ambiental das tecnologias digitais: rios tomados por equipamentos obsoletos, paisagens em que natureza e descarte se confundem, num futuro possível que a aceleração tecnológica já começa a desenhar. Botannica Tirannica (2022) examina os sistemas de classificação da botânica clássica e como práticas científicas historicamente legitimadas carregam marcas de dominação que se replicam na lógica dos algoritmos atuais.
Mayara Ferrão traz Álbum de Desesquecimentos (2024, em curso), obra que parte da ausência de registros visuais sobre as experiências íntimas de mulheres negras e originárias no período colonial para propor uma reconstrução simbólica mediada por inteligência artificial. Cesar & Lois apresentam Culturas Degenerativas: Impacto Ambiental da Inteligência Artificial, instalação em que microrganismos se alimentam de livros sobre o desejo humano de controlar a natureza, enquanto seus comportamentos são incorporados a sistemas de IA em processo contínuo de transformação e corrosão.
Artistas presentes na exposição
Agnieszka Kurant (Polônia), Andrea Khôra (França), Bruno Moreschi (Brasil), Cesar & Lois (Brasil/Canadá), Emmanuel Van der Auwera (Bélgica), Érik Bullot (França), Estampa (Argentina), Giselle Beiguelman (Brasil), Grégory Chatonsky (França), Gwenola Wagon (França), Hito Steyerl (Alemanha), Holly Herndon & Mat Dryhurst (EUA/Reino Unido), Inès Sieulle (França), Joan Fontcuberta (Espanha), Julian Charrière (Suíça/Alemanha), Julien Prévieux (França), Kate Crawford (Austrália), Linda Dounia Rebeiz (Senegal), Marcela Magno (Argentina), Mayara Ferrão (Brasil), Meta Office – Lauritz Bohne, Lea Scherer, Edward Zammit (Malta/Alemanha), Nora Al-Badri (Iraque/Alemanha), Nouf Aljowaysir (Arábia Saudita), Pedro Gallego (Brasil), Sasha Stiles (EUA), Trevor Paglen (EUA), Vladan Joler (Sérvia).

