O desencaixar das coisas | Galeria Pórtico

Retrato de Adolfo Caboclo e Alexandre Zákia [Foto: Renato Suzuki]

São Paulo recebe um novo espaço multidisciplinar dedicado à arte contemporânea no circuito da capital: a galeria Pórtico. Fundada pelo curador e crítico Adolfo Caboclo, ao lado de seu sócio Alexandre Zákia, o espaço abre as portas em 16 de dezembro de 2025, com a exposição coletiva O desencaixar das coisas. Instalada na charmosa vila de casas na Travessa Dona Paula – no coração de Higienópolis – polo de galerias, residências artísticas e espaços culturais no bairro – a galeria chega para transformar a cena artística da cidade.

A Pórtico nasce com o compromisso de repensar o papel da galeria de arte na atualidade, operando como um laboratório de práticas artísticas, espaço de investigação e plataforma de circulação de ideias. “Queremos oferecer ao público um espaço dinâmico de pensamento crítico sobre arte contemporânea, unindo pesquisa, atividades educativas, formação artística e desenvolvimento de mercado”, afirma Adolfo Caboclo, diretor artístico da Pórtico.

A Travessa Dona Paula foi escolhida por sua consolidação como um dos principais pontos de encontro das artes visuais em São Paulo. Ali, a galeria estará ao lado de importantes espaços culturais do bairro, como A Gentil Carioca, coleção moraes-barbosa, Zielinsky, Sardenberg, ateliê397, a residência artística Ybytu e a recém-inaugurada casa onze (espaço dedicado a um programa de residência internacional), e as editoras Celeste e Piscina Pública Edições.

Tijolo aparente e luz natural

Concebido por Noura van Dijk | Interior Design, o projeto arquitetônico transformou os 100 metros quadrados do imóvel em um espaço versátil, que abriga salas expositivas, uma pequena reserva técnica e depósito.

Preservando o refúgio urbano da Travessa Dona Paula e o conjunto de sobrados tombados pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp), a proposta mescla o charme dos tijolos aparentes da fachada original com a neutralidade de uma “tela branca”, pronta para receber as narrativas visuais.

Para alcançar essa atmosfera, algumas paredes internas foram removidas, ampliando a circulação e criando mais áreas para as propostas expositivas. O pátio central foi integrado e ganhou uma cobertura retrátil em lâminas de alumínio, que controla a entrada de luz e ventilação, funcionando como uma extensão das galerias. O piso em cimento queimado clareado, em diálogo com as paredes brancas, reforça a neutralidade para que as obras tenham protagonismo. O espaço sob a escada foi aproveitado com soluções funcionais, como depósito e teleiro, garantindo organização e ampliando a capacidade de arquivo da coleção.

A força da palavra: uma identidade visual que reflete os pilares da galeria

A identidade visual, criada pela designer Tamires Mazzo, reflete os valores da galeria: ser ponto de passagem, encontro e estrutura. O conceito evoca a ideia de portal – porta de acesso à arte e elo entre artistas, público e pensamento crítico. Neste sentido, o logo foi concebido fora do eixo convencional, em um jogo tipográfico que subverte a ordem. Cores expressivas e grafismo vibrante sustentam uma narrativa visual que se expande em todo o sistema de identidade, não se limitando ao símbolo.

Mostra inaugural: O desencaixar das coisas

“O desencaixar das coisas” é a exposição inaugural da Pórtico e apresenta trabalhos de 16 artistas. Com uma seleção que inclui nomes emergentes e consagrados de distintas gerações e geografias, a mostra serve como um prelúdio para a série de exposições e a programação da galeria no ciclo de 2026, refletindo a amplitude de perspectivas que orientam o projeto.

São eles: Angela Bassan (São Paulo, 1952), Caio Borges (São Paulo, 1974), Edson Chagas (Luanda, 1977), Gege Mbakudi (Luanda, 1999), Giovanna Mitrani (São Paulo, 1997), Hugo Barata (Lisboa, 1978), Inês Moura (Cascais, 1982), José Maçãs de Carvalho (Anadia, 1960), Laerte Ramos (São Paulo, 1978), Lilian Walker (Americana, 1994), Lucimélia Romão (Jacareí, 1988), Manoel Canada (São Paulo, 1966), Neno del Castillo (Rio de Janeiro, 1956 ), Omar Khouri (Pirajuí, 1948), Peter de Brito (Gastão Vidigal, 1967) e Ricardo Coelho (São Paulo, 1974).

A exposição conta com fotografias de Lucimélia Romão e do angolano Edson Chagas (vencedor do Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2013), vídeo do português José Maçãs de Carvalho (recentemente exposto na Bienal Internacional de Arte de Macau de 2025), além de pinturas, objetos e instalações. A mostra reflete também a interdisciplinaridade da galeria. Esse aspecto se manifesta na trajetória dos artistas, que poderão desenvolver outras pesquisas durante o ciclo de programação previsto para 2026.

Nomes como o de Omar Khouri, poeta intersemiótico cultuado desde os anos 70, e Inês Moura, participante da mostra Atlânticos, apresentada este ano no Museu da Língua Portuguesa, também deverão atuar em investigações curatoriais e educativas em 2026 junto à direção artística de Adolfo Caboclo.

Além de criar um panorama da obra dos novos artistas representados, a exposição O desencaixar das coisas instaura uma reflexão sobre o próprio espaço que ocupa, sua forma de reverberar e coexistir com outros agentes na cidade e no mundo. Essa condição de “desencaixe” sustenta a poética da mostra, estruturada em três núcleos.

O primeiro, na sala principal da galeria, absorve e dialoga com fragmentos de instalações, pinturas, vídeo e fotografias, compondo narrativas imagéticas sobre corpos e territórios. O segundo núcleo é dedicado às poéticas tridimensionais, acolhendo trabalhos que tensionam a materialidade e evocam memórias do espaço físico. Em contraponto, o terceiro momento valoriza a leveza do papel como suporte, reunindo fotografias, desenhos em carvão e poesia intersemiótica em nanquim, configurando um desdobramento sutil e etéreo da exposição.

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