Nosso Norte é o Sul | Bergamin & Gomide

Cultura Huari [Huari Culture] (600-1000 d.C. [A.D.]), Túnica (Motivo de cruz) [Tunic (Cross motif)], c. 800 d.C. [A.D.]

A Bergamin & Gomide tem o prazer de apresentar a exposição Nosso Norte é o Sul, com textos críticos do curador Tiago Mesquita e de Paul Hughes, que acontece de 21 de agosto a 23 de outubro de 2021. São têxteis andinos, além de cerca de 30 artistas, que exploram a relação entre arte e ofício, apresentando um panorama de obras do nosso continente desde o período pré-colombiano até os dias de hoje.

A tecelagem está entre as primeiras atividades artísticas da humanidade, desempenhando um papel fundamental na evolução criativa e na representação dos arquétipos que povoam nosso imaginário coletivo. Nas sociedades andinas pré-colombianas, os têxteis poderiam ser destinados para uso cotidiano, ou como oferendas aos deuses em rituais ou até em transações comerciais, no entanto, o legado dessas obras nos revelam algo ainda mais importante, a memória de uma iconografia milenar. Nosso Norte é o Sul tem como ponto de partida peças têxteis produzidas pelas culturas Inca, Huari e Nazca, na região dos Andes – que hoje abrange os territórios do Equador, Peru, Bolívia e Chile – relacionando-as à experimentação de formas geométricas das vanguardas do século XX e por diversos artistas contemporâneos na América Latina.

O contato entre diferentes trabalhos busca potencializar novas formas de pensar a produção visual do nosso continente, criando diálogos para além das correntes europeias, como será possível  observar nas obras de Joaquín Torres García e Vicente do Rego Monteiro, cujo repertório decorativo de populações latino-americanas parecia um prenúncio aos raciocínios construtivos.

Estes elementos também poderão ser vistos em obras como Mäcuïli (2021) do artista mexicano Pedro Reyes, que pensa a sua linguagem abstrata a partir de símbolos e concepções culturais de cosmogonias mesoamericanas; em Montez Magno nas obras Trilogia nº 1, nº 2, nº 3 (1967), que partem da ornamentação indígena; e em María Freire, na obra Formas Rojas (1961), que embora não derive explicitamente, emula aspectos da produção ameríndia.

Por outro lado, artistas como Rubem Valentim, Jorge dos Anjos, Madalena dos Santos Reinbolt e Magdalena Jitrik, trabalham com formas simples e regulares a partir de elementos de culturas sacras ou populares, sejam das religiões de matriz africana, da vida rural brasileira ou da visualidade dos trabalhadores industriais.

Há ainda, trabalhos como os de Afonso Tostes, Celso Renato e Héctor Zamora, que se aproximam dos tecidos andinos por meio de outras relações, como as que se dão entre trabalho, forma e material. A relação com a técnica da tecelagem também pode ser vista através dos padrões, que encontram aproximações com obras de Lygia Pape e Mira Schendel.

Parte dos artistas desta coletiva são expoentes das vanguardas abstratas e geométricas da América do Sul, entre eles Lygia Clark, Sergio Camargo, Milton Dacosta, Willys de Castro, Hélio Oiticica, Aluísio Carvão e Amilcar de Castro, com trabalhos históricos produzidos durante os movimentos da arte concreta e neoconcreta.

Segundo o curador Tiago Mesquita: “Elementos supostamente neutros, quando vistos em contextos diferentes, perdem a sua proclamada universalidade. Assim, os usos daqueles elementos tornam-se mais históricos, particulares, contraditórios. Portanto, mais interessantes. Interpretações mais idealistas, platônicas, gostam de imaginar que existem recorrências formais, simbólicas e narrativas. Elas seriam o eco de uma dimensão mais universal da humanidade, de um elemento fundamental da consciência, da espiritualidade; transcendental as mudanças culturais, históricas, sociais, geográficas.

Embora esse texto não pretenda voos teóricos, não é demais afirmar que essa exposição toma um caminho oposto. O que interessa é menos as recorrências, mais as variações possíveis, os contrastes, as recomposições, do uso das linhas no sul da América.”

Nosso Norte é o Sul é um projeto que vem sendo elaborado há cerca de dois anos, em parceria com a galeria Paul Hughes Fine Arts e com organização de Tiago Mesquita, Thiago Gomide e Bruna Grinsztejn João. A Bergamin & Gomide pretende com a exposição promover a arte do nosso continente, destacando a produção local e latino-americana para um público amplo e plural. A mostra conta ainda com um catálogo e o projeto de expografia é assinado pelo ateliê Entre Terras.

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