Toró é mais que uma chuva. De origem tupi, associada à ideia de água que jorra, a palavra nomeia uma força que transborda, rompe e transforma. É esse sentido de explosão natural, de matéria em movimento, que estrutura a exposição individual de Niura Bellavinha, que será inaugurada no dia 28 de março de 2026, no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, integrando as celebrações dos 40 anos da instituição como centro cultural, com curadoria de Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco. Concebida em diálogo direto com a arquitetura e a história do edifício, Toró propõe uma experiência imersiva em que pintura, escultura e obras instalativas operam como campos de transbordamento simbólico, material e sensível.
Como gesto inaugural da exposição, algumas janelas da fachada do Paço recebem uma intervenção em que telas brancas deixam escorrer tinta vermelha, ativando o edifício como corpo e superfície de inscrição. A ação estabelece um elo imediato entre a obra da artista e a memória histórica do lugar, onde, no final do século XVIII, foram tomadas decisões centrais para a história colonial brasileira, incluindo a condenação de Tiradentes. Sem recorrer à ilustração ou ao didatismo, a intervenção funciona como um disparador poético que conecta passado e presente, arquitetura e matéria pictórica. “Intitulei esta intervenção de Chorare Pitangas, expressão em tupi-guarani que significa ‘chorar lágrimas de sangue’”, revela Bellavinha.
“Toró nos interessa como um estado, não como uma imagem. É uma noção de pressão e intensidade que atravessa a obra da Niura e encontra, no Paço Imperial, um campo de ressonância histórica e simbólica”, explicam os curadores.
A pintura como processo
Nas obras de Niura, a pintura deixa de ser apenas superfície para se afirmar como matéria em ação. Escorrimentos, velaturas, pulverizações, impregnações e infiltrações fazem da cor um elemento instável, em permanente deslocamento. Vermelhos intensos convivem com verdes e azuis de aparência aquosa, ampliando o repertório cromático da artista e rearticulando associações entre sangue, água, minério e paisagem.
“Minha pintura é inspirada pela música serial, pelo cinema e pela fotografia. Da música vem a ideia de uma estrutura em variação constante; do cinema, o princípio da montagem, feito de edições sucessivas até que algo se estabilize; da fotografia, o corte, a luz e a relação sutil entre as cores. Trabalho a partir da instabilidade, deixando que erros e aparições conduzam o processo, e gosto de operar com os restos, com as camadas anteriores. Minha pintura é leve como a poeira. Busco um ponto de equilíbrio por meio de uma sucessão de situações e regiões instáveis”, afirma Bellavinha.
A exposição – que marca os 35 anos de carreira da artista – ocupa o terreiro e o terreirinho do Paço, reunindo um conjunto expressivo de trabalhos inéditos em espaços historicamente ligados às áreas de serviço, circulação e abastecimento do prédio. A escolha desses ambientes reforça a dimensão relacional do projeto, construído a partir das camadas simbólicas do lugar.
“A exposição se estrutura a partir da fricção entre tempos distintos. A arquitetura do Paço não funciona como cenário, mas como uma presença que tensiona a leitura das obras e desloca a experiência do visitante”, pontua a curadoria.
A dimensão material da obra é central. Niura trabalha com pigmentos naturais, terras, rejeitos minerais e poeira de meteoritos. Em algumas esculturas, pedras são atravessadas por linhas de seda que pertenciam à mãe da artista, criando uma relação direta entre memória íntima e território. As fitas evocam veios de minério e veias do corpo, aproximando mineração e anatomia, exploração da terra e ferida corporal. Aqui, o corpo surge como metáfora do território e o território, como extensão do corpo.

