O Rio de Janeiro recebe, a partir de 28 de agosto, às 19h, a exposição Nhe’ẽ Se – Desejo de Fala, que reúne 30 obras de 13 artistas indígenas contemporâneos, representantes de 12 povos de diferentes regiões do Brasil. A inauguração ocorre na noite de abertura da nova programação do centro cultural Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia, no Flamengo, onde a mostra estará em cartaz gratuitamente de quarta a domingo, das 11h às 20h, até 11 de outubro.
O projeto cultural foi selecionado pela chamada pública nacional Brasilidades & Futuros do Instituto Futuros e patrocinada pela Petrobras, via Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura.
Com curadoria de Sandra Benites, Nhe’ẽ Se convida o público a conhecer as tessituras de variadas tecnologias conduzidas por distintas populações indígenas brasileiras. Sandra, da etnia Guarani Nhandeva (MS), é pesquisadora e doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ, tendo se tornado a primeira curadora indígena no Brasil a integrar a equipe de um museu. A assistência de curadoria é de Rodrigo Duarte.
A mostra, que já itinerou por Brasília, Salvador e São Paulo, reúne trabalhos de Ana Maria Kariri, Glicéria Tupinambá, Keyla Palikur, Kuenan Mayu, Luakam Anambé, Mandacaru Karajá, Mandú, Paulo Desana, Sioduhi Waíkhun, Vilmone Guarani, Ypituna Pankararu e Ziel Karapotó, articulando diferentes linguagens, materiais e modos de fazer.
“A arte contemporânea produzida por artistas indígenas é um sistema tecnológico que atualiza as realidades de cada comunidade indígena. Mais que uma mostra de arte, Nhe´ẽ Se é um espaço de ativação da luta, fortalecimento e afirmação daqueles que aqui sempre estiveram, conhecedores de cada esquina dessas terras, antes mesmo de chamar-se Brasil”, afirma a curadora.
“Dar início ao novo programa artístico é celebrar a multiplicidade de vozes que constroem o Brasil, e com a chegada de Nhe’ẽ Se – Desejo de Fala, o centro cultural Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia abre as portas para narrativas provocativas e transformadoras. Convidamos o público a vivenciar ideias que questionam o presente e reimaginam os futuros possíveis a partir da nossa própria identidade”, ressalta Victor D’Almeida, gerente de cultura do Instituto Futuros.
Nesse sentido, a exposição coloca em diálogo ciências originárias e técnicas contemporâneas, mostrando como artistas indígenas se apropriam também das tecnologias modernas como ferramentas de comunicação, resistência e afirmação de seus territórios e cosmologias.
A idealização de Nhe’ẽ Se – Desejo de Fala é da Via Press – Comunicação & Cultura, que atua há 26 anos no mercado, com foco no desenvolvimento de projetos culturais e em ações de comunicação estratégica. A realização é da SOMOS Comunicação, uma empresa de comunicação, cultura e eventos com modelo 360º, com mais de 20 anos no mercado e projetos importantes na área cultural em seu portfólio.
Obras e artistas
As obras reunidas em Nhe’ẽ Se revelam diferentes caminhos e saberes. As fotografias de Paulo Desana e Ypituna Pankararu formam um diálogo entre tecnologias originárias e ocidentais capaz de sintetizar uma forma de vida bela que não estabelece distinções entre humanos e não humanos. As redes e maracás de Ziel Karapotó e as tramas de plumas de peru e guará de Glicéria Tupinambá instauram uma sofisticada teia de relação que envolve e agrega como elemento de ajuntamento coletivo, tecida por laços de saberes ancestrais que constroem um movimento de reconexão do fazer ancestral.
Os tecidos e linhas de Luakam Anambé, Mandacaru Karajá, Sioduhi Waíkhun articulam sustentabilidade, futurismos e uma minuciosa experiência têxtil, a partir da milenar ciência dos pigmentos naturais, do diálogo fino em cada cor revelada, vestimentas sagradas de uma organicidade que vincula território e autonomia. As materialidades de Keyla Palikur, Vilmone Guarani, Ana Maria Kariri, Mandú, Kuenan Mayu articulam em seus fazeres elementos de oralidade, corpo e memória, e convidam a pensar sobre a produção em materiais como embaúba, taquara, pedras d’água, peles de animais e entrecascas de turiri.
O Manto Tupinambá
A exposição traz ainda um manto tupinambá que esteve na 60ª Bienal de Veneza em 2024, quando a artista indígena Glicéria Tupinambá se destacou no Pavilhão do Brasil — renomeado como Pavilhão Hãhãwpuá. Ela apresentou a instalação Okará Assojaba, que integrou a mostra Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam, utilizando a recriação e o simbolismo dos mantos sagrados tupinambás para denunciar a violência colonial e afirmar a resistência e a memória de seu povo.
Segundo a curadora, o Manto Tupinambá representa um diálogo direto com os mantos históricos preservados em coleções europeias, sendo uma recriação contemporânea construída a partir dos conhecimentos tradicionais do povo Tupinambá da Serra do Padeiro. Sua elaboração exigiu aproximadamente oito meses de trabalho artesanal, envolvendo pesquisa histórica, conversa com os velhos da aldeia, domínio técnico, conhecimentos e assinaturas relacionados à confecção dos antigos mantos cerimoniais.
A peça foi confeccionada com aproximadamente 5.000 penas, entre penas de peru de guará, ave de profundo significado simbólico para o povo Tupinambá, além de cerca de 500 metros de linha de algodão encerada com cera de abelha do próprio território e tirada pelos jovens, evidenciando a complexidade técnica de sua produção. O Manto Tupinambá foi confeccionado em 2024 pela artista e pesquisadora indígena Glicéria Tupinambá, sendo uma obra contemporânea inspirada nos históricos mantos Tupinambá confeccionados há mais de 300 anos.
Arte indígena como tecnologia do futuro
A escolha do Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia para receber a exposição amplia esse diálogo. Em um espaço dedicado a pensar as relações entre arte, tecnologia e novas possibilidades de futuro, Nhe’ẽ Se introduz uma perspectiva na qual o ancestral não é sinônimo de passado, mas uma tecnologia permanentemente atualizada.
“Ativar o espaço Petrobras Futuros é a mobilização de um traçado que artistas indígenas confeccionam coletivamente para reivindicar um encontro de fala aberta e direta sobre as demandas dos povos originários na sociedade brasileira em relação ao meio ambiente”, afirma a curadoria.

