“ReverberAção”, do artista indígena Nei Xakriabá, ocupa o Jardim da Fundação, em Florianópolis. A mostra com curadoria de Betânia Silveira é inédita e reúne seis moringas zoomórficas modeladas em argila, que são objetos que evocam a relação ancestral do povo Xakriabá com a terra, a água e os animais do cerrado.
As peças, moringa com tampa de gavião, moringa mãe-da-lua, moringa tamanduá, moringa onça, moringa peixe e moringa cobra, foram criadas ao longo do mês de junho de 2025, após meses de diálogo entre o artista e a curadora. Cada uma carrega uma narrativa simbólica que expressa a luta pelo território, a retomada das práticas cerâmicas tradicionais e a resistência cultural de um povo que reverbera sua existência através da arte.
“Essa exposição é uma forma de mostrar nossa diversidade étnica e nossas lutas pelo direito ao território e à própria existência. Espero que o público se interesse em conhecer mais de perto nossa história e troque os estereótipos por afetos”, afirma Nei Xakriabá.
O povo Xakriabá, pertencente ao tronco linguístico Jê, é um dos povos indígenas do Brasil que habita majoritariamente o norte de Minas Gerais, em território próximo ao rio São Francisco.
PRIMEIRA VEZ EM SC
Essa é a primeira vez que o artista expõe em Santa Catarina e na Fundação Cultural Badesc. Para ele, o convite feito pela curadoria foi recebido com muita alegria. “É um orgulho ver nossa arte alcançar este Estado tão importante para o país. Meu lema é: arte indígena Xakriabá com um pé na aldeia e o outro pé no mundo”, destaca.
Betânia, que também é artista e trabalha com cerâmica, já participou de exposições na Fundação e assina pela primeira vez uma curadoria. “Conheci primeiro as obras do Nei, elas já carregavam o território, a memória e a força do povo Xakriabá. Depois, conheci o artista, e entendi que sua arte tem um pé na aldeia e o outro no mundo. Ela não só preserva, mas também anuncia: fala da terra, da luta e do tempo que insiste em não ser esquecido, e por isso fiz o convite para ele”, compartilha.
A expectativa do artista e da curadora, ambos nascidos em Minas Gerais, é de que a mostra seja amplamente visitada, especialmente por escolas e crianças, para que tenham contato direto com a cultura, a arte e a cosmovisão Xakriabá. “Ao ocuparmos esses espaços, mostramos para nossas crianças o valor da nossa arte e criamos estratégias para envolvê-las em nossas práticas ancestrais, mesmo diante dos desafios impostos pelas tecnologias que chegam às aldeias”, ressalta o artista.
Para Betânia, essa curadoria é uma oportunidade de possibilitar que a voz indígena do povo Xakriabá reverbere na arte de Santa Catarina. “Se anteriormente meu trabalho visual tinha o sentido de ecoar um apelo a ação de indigenizar o planeta, nesse momento sinto que de ‘eco’, passou a ‘reverberAção’, abrindo espaço para o artista indígena ocupar, e isso é muito importante pra mim e me sinto muito honrada por estar ao lado do Nei”, completa a curadora que apresentará uma intervenção, um painel em tecido com erva-mate.

