Quando se fala em arte sacra, há uma associação quase automática com manifestações ligadas ao Cristianismo. A proposta da mostra Negra Arte Sacra é intervir nesse imaginário, apresentando artistas contemporâneos cuja produção se volte à religiosidade afrodiaspórica. Para repensar um pilar da história da arte ocidental, nada mais adequado do que sair dos museus e adentrar o Axé Ilê Obá, primeiro terreiro de candomblé tombado no estado de São Paulo, que em 2025 completa 75 anos.
Entre os dias 10 e 13 de abril, o terreiro localizado no Jabaquara recebe a exposição coletiva junto de uma programação diária que tensiona a ideia de arte sacra. Mesas de debate com artistas e acadêmicos e até um cortejo de maracatu estarão entre os destaques. Felipe Marcondes da Costa, curador, e Fábio Melo, coordenador de patrimônio do Axé, destacam a dimensão didática do evento, conscientes de que muitos dos visitantes podem ter com essa exposição sua primeira visita a um espaço dessa natureza.
Felipe identifica a familiaridade com os terreiros como parte relevante no combate à intolerância religiosa: “Existe o hábito corrente de entrar em igrejas para apreciar sua estética, seja a arquitetura, esculturas, vitrais. Por que não naturalizar o mesmo para um terreiro? Se alguém me diz que um terreiro é só um barracão eu já sei que aquela pessoa nunca entrou em um”, reflete o curador. No mesmo sentido, Isabela Vatavuk, responsável pelo educativo da exposição, destaca “como a mudança de contexto, apresentando obras não em um museu, mas em um terreiro, traz novas potencialidades, aproximando os trabalhos de arte da vida e da prática espiritual”. Ela ressalta ainda como a equipe do educativo está focada não apenas em informar sobre os símbolos religiosos presentes nos trabalhos, mas também sobre os elementos visuais constituintes daquela arquitetura.
O projeto expográfico desenvolvido por Braulio Gomes e Georgia Sharp estabelece um diálogo íntimo entre a distribuição das obras dos mais de 30 artistas e as particularidades arquitetônicas do espaço, de modo que as pinturas, esculturas, videoartes, objetos e instalações presentes na exposição se relacionem com os símbolos comuns à religiosidade.
A mostra Negra Arte Sacra é o primeiro evento da série que comemora os 75 anos do Axé Ilê Obá, que sob a liderança da Yalorixá Mãe Paula de Yansã, estará de portas abertas não apenas durantes os quatro dias de exposição, mas ao longo de todo o ano de 2025 para recepcionar as pessoas interessadas em arte, religião e cultura.
Programação:
10/04, quinta-feira, a partir das 18h – Vernissage
11/04, sexta-feira, às 19h – Mesa de debate: Joaquín Terrones (MIT), Patrícia Teixeira Santos (Unifesp) e Renata Melo Barbosa do Nascimento (UnB)
12/04, sábado, às 19h – Mesa com artistas: Dhamaze Lima, Marcelo D’Salete, Mônica Ventura e Sheyla Ayo
13/04, domingo, a partir das 16h – Cortejo de maracatu com Cia. Caracaxá
Artistas:
Ailarrubi, Amanda Alcantara, Beatriz Brito, Beca Chang, Bruna Prado, Bruno Faria Hatanaka, Cecifrance Aquino, Con Silva, Denis Moreira, Diogo Nógue, Fátima Miranda, Francisco Formagio, INTRUSA, Julia Frezza, Lucius Goyano, Marco Antonio Fontes de Sá, Mauricio Igor, May Agontinmé, Mônica Ventura, Natan Dias, ÓGBÁ, Paulo Renato Mazzaro, Pedro Santana De Oliveira, Pepi GM, Ricardo dos Santos, Richard Calhabeu, Rita Oyakanmi, Roberta Mendes de Sá, Roderick Steel, Rodrigo Lahoud, Rosana Paulino, Rubens de Souza, Sammy Melo, Sheyla Ayo, Vitú de Souza, Xica e Zana


