Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural | Itaú Cultural

Com curadoria de Felipe Scovino e projeto expográfico de Marcus Vinícius Santos, apresenta 70 obras que abarcam 150 anos de história da confecção de livros de artista, em diversos formatos, como livros-objeto e poemas concretos. Entre elas, quatro revistas originais de Ângelo Agostini, do século XIX, cinco publicações dos anos 1940 da extinta Sociedade dos Cem Bibliófilos, além de poemas concretos e livros-objeto contemporâneos de Waltercio Caldas, Brígida Baltar, Nuno Ramos, Odires Mlászho, Julio Plaza, Augusto de Campos, Artur Barrio e Rosangela Rennó.
Quatro obras recém adquiridas para a coleção, são exibidas pela primeira vez nesta mostra. Uma delas é o livro de Sérvulo Esmeraldo – Variations sur une courbe –, importante artista cearense e pioneiro da arte cinética no Brasil. Ele traz uma série de gravuras que é paradigmática do seu trabalho. O livro não é uma poética comum na obra do artista, assim como na de Arthur Luiz Piza, que entra na mostra com Bernard Palissy, publicação que contém sete gravuras originai. De Sandra Cinto, está presente o livro objeto Partitura, inspirado em antigos cadernos de estudos musicais e reinventados com a técnica da litografia, e, de Antonio Dias, há um livro expondo imagens ampliadas da carne/pele humana, cujo título é Flesh Room with Anima.
“Esta não é uma exposição apenas sobre livros-objetos como se poderia imaginar quando veem a mente a expressão ‘livro de artista’”, observa Scovino. De acordo com ele, a mostra, amplia essa percepção ao envolver os atributos que cercam este tipo de obra de arte: reflete a produção de uma revista pelo próprio artista concebendo seu conteúdo e design gráfico; a manufatura de um livro ou a intervenção propondo uma ação conceitual ou física nesse suporte, ambos em caráter de tiragem limitada; a ilustração de uma publicação ou a produção de uma obra especialmente concebida para a sua capa; e a execução de um álbum de gravura.
O curador ressalta que a exposição segue um percurso cronológico respeitando o seu caráter histórico ao investigar modelos para o suporte livro de artista. Começa nas múltiplas atividades do chargista e editor Angelo Agostini (1843-1910). Segue pela produção de capas de livros e álbuns de gravuras assinados por artistas visuais durante o modernismo, avança pelas contribuições de artistas como Portinari, Goeldi e Di Cavalcanti e chega aos livros-esculturas, ou livros-objetos e a poesia ganhando volume e densidade durante a produção concreta. Por fim, encerra com um núcleo contemporâneo dividido curatorialmente em Uma escrita em branco, Livros-objetos, Rasuras e Paisagens e que problematiza o chamado livro-objeto.
A mostra
Do conjunto da coleção, as revistas de autoria de Agostini estão entre as peças mais raras e compõem um dos núcleos da exposição. “Ele produzia tudo, incluindo a prensa, a ilustração, a escolha do papel e a encadernação”, conta o curador. “As publicações dele servem para pensar como o artista fazia no passado”, completa. No total, são quatro originais datadas de 1866 a 1896, do Império à República, que além de representativas na história da imprensa brasileira marcam o início da compreensão do uso do livro como obra ou artigo de arte. Todas estão presentes na mostra: O Cabrião (1866-1867), O Polichinello (1876), Don Quixote (1895-1903) e Revista Illustrada (Impressões do Carnaval de 1890).
Agostini abre o caminho que permeia a exposição partindo, na sequência, para ilustrações no período do Modernismo, como as de autoria de Di Cavalcanti – incluindo a capa do livro Ballada do Enforcado, de Oscar Wilde, o clássico de Gylberto Freire, Casa Grande e Senzala, ilustrado por Cícero Dias (1934) ou O Alienista, de Machado de Assis, com gravuras de Candido Portinari (1948) e outros. Passa por cinco obras raras publicadas pela Sociedade dos Cem Bibliófilos, ativa de 1943 a 1968: Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis, com ilustrações de Cândido Portinari (1943), O Rebelde, de Inglez de Souza e Iberê Camargo (1952), Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida e ilustração de Darel Valença Lins (1964), Canto Geral, de Guimarães Rosa, ilustrado por Djanira (1964) e O Compadre de Ogun, de Jorge Amado, ilustrado por Mário Cravo (1969).
O percurso da mostra segue pelo eixo Álbuns de Gravura, com criações de Aldo Bonadei, Antonio Bandeira, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral nos anos 1970, e entra em Design gráfico: capas e ilustrações ao longo da história, que traz à tona a importância do design gráfico, até chegar a trabalhos contemporâneos mais recentes, que problematizam o chamado livro-objeto em obras de Augusto de Campos, Waltercio Caldas e Brígida Baltar.
Nesta sequência, Narrativas em Processo – Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural se estende por outros quatro núcleos que compreendem e segmentam a produção contemporânea de livros de artista.  O denominado Livros-Objetos resgata o movimento concretista no Brasil, de meados dos anos de 1950, quando poetas começaram a problematizar a noção de livro, palavra e espaço. Aqui, Augusto de Campos, Júlio Plaza e Waltercio Caldas experimentam ação, sonoridade e colocam a palavra para além da página. O livro torna-se escultura, a palavra avança o plano e alcança a tridimensionalidade. Entre as obras que atendem o conceito, Muda Luz (1970), do espanhol Plaza em parceria com Campos. De autoria individual do brasileiro, é apresentado ainda Viva Vaia (1972-2001), que mais se assemelha a uma escultura em acrílico.
No mesmo núcleo o livro também aparece como uma intervenção plástica e o artista elevando a palavra, o poema, o livro e a escultura como formas indissociáveis, quebra a semântica no plano da leitura. Com estas características estão Poemobiles (1974), um conjunto de 13 objetos originais de Plaza, com textos de Campos, lançados na época em uma tiragem de somente mil exemplares, e também o emblemático e moderno O Livro Giacometti (1997), no qual Caldas apresenta uma escultura de metal sobre um livro carimbado.
Em Uma escrita em branco estão obras nas quais a palavra dá lugar à materialidade do livro para evidenciá-lo com suportes sem narrativa deixando o leitor alheio a referências de mensagem. Um exemplo é o livro-objeto de acrílico moldado somente com o título gravado na parte que corresponde à capa: Como Imprimir Sombras (2013), de autoria de Waltercio Caldas. Em Devaneio-Utopias (2005), de Brígida Baltar, vê-se um par de cerâmicas em formato de livro na cor marrom que leva o observador a questionar-se sobre a função de uma publicação do gênero.
Neste núcleo estão ainda outras peças de Caldas, como O Livro de Velazquez (1996), Momento de Fronteira (1999), Estudo sobre a Vontade (1975/2000), este ilustrado com fotos de Miguel Rio Branco, e por fim, Hiroshima – Da série Paisagem Cambiantes (1999), de Odires Mlászho.
Rasuras, mais um núcleo, apresenta livros que recebem intervenção plástica e sua função semântica se amplia. As obras não respeitam o jogo de uma narrativa linear, a escrita não precisa ser compreendida e o que importa é a mensagem final, que tem até mesmo um certo grau de violência e gestualidade. Em Balada (1995) de Nuno Ramos, o livro espesso e de capa dura não contém palavras, mas sim uma perfuração profunda transpassando-o brutalmente, do começo ao fim, servindo como o único signo de leitura da obra.
No núcleo Paisagens, que encerra os quatro, são exibidos trabalhos que transportam o leitor a uma experiência sensorial por meio de efeitos de impressão. Aqui, os livros têm uma aspiração ao tátil e à textura na superfície ou nas imagens, dada a fusão de cores e formas utilizadas. Neste sentido, Memória Fotográfica (2013), de Lucia Mindlin Loeb, Paisagismo (2005), de Roberto Berthônico, Páreo (2006), de Tatiana Blass e Buenos Aires Tour (2003), de Jorge Macchi.

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