Não um sonho | Simões de Assis

Efigênia Rolim, Sem Título

A Simões de Assis, abre no dia 31/08 a coletiva “Não um sonho”, com curadoria de Mirtes Marins, com uma seleção de artistas, em sua maioria, mulheres, que abordam a temática do surrealismo. A exposição se inspira na obra da cineasta Germaine Dulac, La Coquille et le Clergyman (A Concha e o Clérigo), de 1927, reconhecida como o primeiro filme surrealista da história, antecipando o consagrado Um Chien Andalou (Um Cão Andaluz, 1929), de Luis Buñuel e Salvador Dalí.

“Não um sonho” é a fala de abertura do filme experimental. Segundo Marins, a mostra parte desse trabalho “(…) para revisitar propostas surrealistas históricas e seus potenciais imaginativos e críticos, em um momento em que a própria realidade impõe restrições para a vida individual e social – até há pouco tempo, inimagináveis”. A noção de normalidade, de alguma forma, já ganhou novos sentidos após a experiência global com a pandemia. As imaginações dão espaço a novas possibilidades de reinvenção da realidade, e nesta exposição, podemos apontar o olhar para a liberdade que a produção de imagens mentais proporciona, seja durante os sonhos ou uma possibilidade de imaginar a vida.

Mais do que isso, a exposição amplia seu escopo indo além de um recorte histórico do surrealismo, atualizando diálogos entre produções da década de 1920 e trabalhos criados ao longo dos anos 60, 70 e 80, como um exercício imaginativo enfatizando aspectos mais urgentes e atuais, como a subversão de linguagens, a discussão de gênero e o feminismo. O conjunto de obras e artistas, permite revisitar, por meio de obras e documentos, tanto o surrealismo histórico como atualizar suas pautas oníricas e iconoclastas.

Seguindo a cronologia, os dois artistas que primeiro recebem o destaque e o reconhecimento histórico são nomes fundamentais do modernismo brasileiro: Cícero Dias e Ismael Nery. O primeiro, já mencionado como o “primeiro artista surrealista brasileiro”, participa com belíssimas aquarelas, enquanto o segundo traz trabalhos sugestivos ao estudo anatômico e à metamorfose, mas também, fazendo uma sutil alegoria sexual. Em seguida temos Niobe Xandó, com sua série de “Flores Fantásticas”, uma pesquisa inicial de sua carreira – anterior às Máscaras – em que a artista curtamente se dedica a um olhar fantasioso a plantas que ganham aspectos animalescos e até monstruosos, cheias de movimento e ação. Numa chave mais atual, Hudinilson Jr. e Gretta Sarfaty lançam mão do próprio corpo em investigações sobre a sexualidade, insuflando vida a objetos inanimados (de um lado a máquina de xerox, do outro uma longa corda de sisal). Já a artista Naïf Efigenia Rolim recupera os descartes cotidianos transformados em elementos de sonhos, enquanto Wanda Pimentel, com proximidade ao universo feminino, conecta-se diretamente com o filme de Dulac.

A mostra, também inclui importantes participações internacionais: Louise Bourgeois, artista ilustre e mundialmente reconhecida pela sua produção íntima, participa com uma escultura de bronze e uma pintura (guache s/ papel), articulada com um documento de Meret Oppenheim (autora de Le Déjeuner en Fourrure, 1936), ícone das atividades surrealistas, que apresenta o cartão Convite para a exposição “dessins, Objets & Peintures”, 1973, realizada em Paris. Outro documento da mostra é o catálogo Amazônia, de Maria Martins, produzido em 1943 na ocasião de sua terceira exposição individual, na Valentine Gallery, em Nova York.

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