Nakoada: estratégias para a arte moderna | Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio)

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) inaugura no sábado, 9 de julho, a exposição Nakoada: estratégias para a arte moderna. Com curadoria de Denilson Baniwa e Beatriz Lemos, a mostra busca acrescentar novas camadas às discussões geradas pelo centenário da Semana de 22.

“Nakoada” é uma estratégia de guerra do povo Baniwa da região do Alto Rio Negro para elaborar novas possibilidades de permanência no mundo. O conceito orienta a curadoria da exposição e resume a tática de mergulhar na compreensão de aspectos de outra cultura para a garantia da própria sobrevivência. Se originalmente esta prática era usada pelos Baniwa para lidar com outros povos originários, hoje é repensada para a relação com culturas não-indígenas.

“Nakoada é um gesto de retorno. Seria o momento em que as pessoas que foram alvos de ações externas entendem o poder opressor do outro e agora procuram uma possibilidade de retornar à sua própria autonomia”, explica Denilson Baniwa, um dos mais proeminentes artistas da arte indígena contemporânea.

Beatriz Lemos, curadora adjunta do MAM Rio, explica que nakoada não é um tema para a exposição, e sim uma forma de agir: “É uma maneira de pensar que se afasta da lógica ocidental imperialista, que incorpora e instrumentaliza as referências dos outros povos. A ideia é entender o modernismo ainda como um marco e estudá-lo, para pensar o que vem pela frente, como podemos imaginar os próximos 100 anos”.

De acordo com a curadoria, mais do que propor uma revisão crítica do modernismo – o que já vem sendo feito de maneira elaborada, inclusive por artistas indígenas – a exposição pretende mostrar pontos de partida alternativos para refletir sobre o que poderia ser uma produção artística que se engaja com alguns dos ideais modernos, mas escapa de suas armadilhas.

Na exposição, a silhueta de uma cobra serpenteia por todo o Salão Monumental do MAM Rio. “A expografia toma a forma de uma serpente cósmica que não tem começo nem fim. Essa simbologia é recorrente na cosmovisão baniwa e em diversas culturas ocidentais e orientais, do norte e do sul”, observa Denilson Baniwa. “Ela digere a nossa história e carrega, dentro de seu bojo, esse tempo expandido desde antes da colonização”.

De acordo com Pablo Lafuente, co-diretor artístico do MAM Rio, “Nakoada continua o trabalho que o museu vem fazendo em repensar memória e patrimônio em função de perspectivas e saberes outros, que nos ajudam a atualizar a história e fazer a cultura do passado relevante no presente”. “A exposição nos provoca a pensar, a olhar de novo as obras e artistas que pensamos que conhecemos. Rearticulando essas narrativas e linguagens, e apresentando-as em outras configurações em conexão com criações indígenas e com obras de arte contemporânea, Nakoada as expande e as ativa como ferramentas para outras histórias e outras construções”.

OBRAS E ARTISTAS

A exposição conta com trabalhos de quatro artistas contemporâneos convidados a criar especialmente para a ocasião: Cinthia Marcelle, Mahku, Novíssimo Edgar e Zahy Guajajara. Obras fundamentais de expoentes do modernismo brasileiro, como Alberto Guignard, Alfredo Volpi, Anita Malfatti, Candido Portinari, Djanira, Di Cavalcanti, Ismael Nery, José Pancetti, Oswaldo Goeldi e Tarsila do Amaral, entre outros, também estão presentes. Completam a mostra uma pintura do artista Jaider Esbell (1979-2021), cerâmicas do acervo do Museu do Índio – potes e vasos dos povos Karajá, Marubo, Maku, Terena e Ticuna, bonecas Karajá e um conjunto de placas com grafemas Baniwa.

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