Mirela Cabral | Galeria Kogan Amaro

AQUÁTICA I, 2020, Mirela Cabral

Espaços vazios de uma casa, cantos com vasos de plantas, nichos desocupados e a natureza reduzida ao jardim, com muito mato e um lago quase seco – o cenário cotidiano durante o isolamento social e sua incessante funcionalidade quase secreta, explodem em obras que compõem O Rebento, exposição inédita de Mirela Cabral, em cartaz no site da Galeria Kogan Amaro.

Ao longo de oito meses de 2020, Mirela Cabral morou no interior de São Paulo. Acompanhada de sua pequena família, aplicou-se a leituras extensas, estudou catálogos, praticou rituais diários e passou a observar a casa que habitava, constatando que tudo ao seu redor, como plantas, insetos e fungos, está ou prestes a rebentar ou em movimento. Esta consciência a levou a trabalhar durante madrugadas em desenhos, pinturas e bordados exuberantes e expressivos.

Para sua primeira exposição individual na Galeria, com curadoria do professor e crítico Agnaldo Farias, foram selecionadas 20 obras com suporte sob papel ou tela, compostas por materiais e técnicas diversas: uma linha que começa com seu corpo enunciado por pastel oleoso, passa para o grafite, depois carvão, transmuta-se em tinta a óleo, enquanto todo o tempo pode ser acompanhada por nanquim.

“O que importa são as linhas, a exuberância do grafismo, o modo peculiar como a artista plasma e pensa sua expressão. Esvisceradas as formas, dilacerados os contornos, as linhas, por elas, assumiram a preponderância do processo. Não lhes cabia mais representar nada, passaram a ter vida própria”, pontua o curador Agnaldo Farias.

A curiosidade em experimentar outra prática artística, com um tempo mais lento, distinto da alta velocidade em que a artista “rebentava” em papéis e telas, a levou até o bordado, experimentando engrossamentos de linhas, mudanças súbitas de cor, planos texturados e formas sutis. “Eu sempre achei meus desenhos explosivos e queria entender se ele era mesmo ou não. Quando eu vi que eu também explodia no bordado, só que levava bem mais tempo, eu entendi que era esse trabalho que eu queria ter, eu realmente tinha decidido isso. Assim, eu comecei a entender o tempo das coisas, a existência da desaceleração. Foi uma espécie de pesquisa rítmica do meu próprio corpo em ação com a matéria”, esclarece Mirela.

As obras permitem entrever-se uma figura, uma planta, um objeto ou uma paisagem. No entanto, a forte característica de irromper o que é referente, prezar pela descontinuidade de composições e de faturas coerentes, por meio de linhas interrompidas, entrecortadas e fraturadas, tornam suas obras singulares e aproximam o espectador do que há de selvagem em si.
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