Miguel Rio Branco – IMS Paulista

Série Parede Vermelha, 1992/2020, Miguel Rio Branco

Em sua carreira de mais de 50 anos, Miguel Rio Branco (1946) construiu uma obra singular, marcada pelas cores vibrantes e pelo cruzamento entre a fotografia, o cinema, a instalação e a pintura. Sua produção fotográfica é o foco da exposição inédita que o IMS Paulista (av. Paulista, 2424, São Paulo) inaugura no dia 8 de dezembro (terça-feira). Também será lançado um novo livro, com fotos e textos sobre o artista (informações abaixo).

No dia da abertura (8/12), às 18h, haverá uma live com Miguel Rio Branco, Thyago Nogueira, coordenador da área de fotografia contemporânea do IMS e um dos curadores da mostra, e a crítica de arte Luisa Duarte, que assina artigo no novo livro. O evento gratuito será transmitido ao vivo no canal de YouTube do IMS: .youtube.com/imoreirasalles

Intitulada Palavras cruzadas, sonhadas, rasgadas, roubadas, usadas, sangradas, a exposição é resultado de um mergulho de Rio Branco em seu próprio arquivo. Ao rever sua produção, o artista cria conexões e diálogos entre suas fotografias, atribuindo novos sentidos às imagens. A curadoria da mostra é de Rio Branco e Thyago Nogueira.

Organizada de forma cronológica, a seleção reúne mais de 200 trabalhos, produzidos desde os anos 1970, quando Rio Branco iniciava as experimentações com a fotografia, até os dias de hoje. As obras investigam temas caros ao artista, como a sexualidade, a violência, a dor e a solidão, além de evidenciar o caráter multidisciplinar de sua produção.

Série Coração, Espelho da Carne, 1980, Miguel Rio Branco

Filho de diplomata, Rio Branco cresceu entre a Espanha, Portugal, o Brasil, a Suíça e os Estados Unidos. Nos anos 1960, em Berna, Suíça, iniciou-se no desenho e na pintura, linguagens que influenciariam sua obra posterior. Em 1966, matriculou-se no New York Institute of Photography. No Brasil dos anos 1970, trabalhou como diretor de fotografia em filmes de Júlio Bressane e Arnaldo Jabor, entre outros cineastas. Também atuou como fotógrafo documental, registrando paisagens e habitantes do país. Entre 1980 e 1982, foi correspondente da Agência Magnum, em Paris. Com o passar dos anos, suas fotografias se distanciaram da simples função documental, assumindo tons poéticos e sensoriais, em diálogo com outras linguagens artísticas.

Palavras cruzadas… apresenta imagens de várias momentos da carreira de Rio Branco. Inclui, por exemplo, a série New York Sketches, produzida em Nova York, entre 1970 e 1972, quando Rio Branco morou na cidade e conviveu com artistas como Hélio Oiticica, Antonio Dias e Rubens Gerchman. Pouco conhecidas, essas fotografias em preto e branco documentam a energia vibrante e ao mesmo tempo decante do bairro de Lower East Side. Entre as imagens, há registros de Oiticica no metrô e de marcos da arquitetura, como o World Trade Center, destruído em 11 de setembro de 2001.

Em seguida, a mostra apresenta trabalhos produzidos no Brasil, como as séries Coração, espelho da carne, premiada em 1980 na I Trienal de Fotografia do MAM/SP, e Mona Lisa (1973), sequência fotografada em um bordel no município de Luziânia (GO), no entorno do Distrito Federal.

Rio Branco criou para a exposição o políptico Maldicidade #3, parte da série na qual recombina imagens de diferentes cidades para tratar das contradições urbanas, da violência e da solidão. O terceiro políptico da série apresenta fotografias feitas em metrópoles como São Paulo, Salvador, Nova York e Cidade do México. “Ao longo de sua carreira, Rio Branco construiu uma elegia da experiência urbana e coletiva, encenada pelas pessoas que cruzaram seu caminho”, pontua Thyago Nogueira, cocurador da mostra.

Série Parede Vermelha, 1992/2020, Miguel Rio Branco

Dos anos 1990 em diante, o artista trocou a agilidade da câmera de 35 mm pelos filmes de médio formato, produzindo imagens cada vez mais sintéticas e depuradas. “A força do trabalho de Rio Branco não está apenas no quadro das imagens, mas na liberdade com que as descola de seu contexto original para dar-lhes um novo sentido, construído através de uma cuidadosa edição. Rio Branco usa suas fotografias como notas musicais, que associa em dípticos, trípticos e polípticos, como quem compõe os acordes de uma melodia visual”, afirma Nogueira.

Fotografia e música estão reunidas na instalação Out of Nowhere, criada originalmente para a Bienal de Havana de 1994 e exibida aqui em nova versão. A obra reúne imagens que Rio Branco produziu em uma academia de boxe da Lapa (bairro boêmio do Rio de Janeiro), com fotografias de outros trabalhos do artista, além de páginas de um jornal nova-iorquino dos anos 1930 – tudo emendado por um grande tecido negro e refletido por espelhos antigos e gastos. Na instalação, a própria movimentação do visitante entra em quadro.

A mostra traz também as obras Blue-green e Blue-gray (1994-2000) e a série Morandi perverso (1993-2020). Nas primeiras, a imagem de um carro em Havana apresenta a realidade econômica do regime cubano. Na segunda, a foto de uma fábrica de azeite abandonada em Santiago de Compostela, na Espanha, acena ao pintor italiano Giorgio Morandi e destaca o contraste entre a sensualidade das garrafas e a realidade do lugar, que se tornou um ponto de uso de heroína.

“É a liberdade de recompor suas imagens em novos sentidos que permite que Rio Branco encare seu arquivo não como um acervo histórico, mas como uma obra viva e pulsante – matriz desta exposição.” Em cartaz até maio de 2021, a exposição reforça a originalidade da obra de Rio Branco, marcada pela experimentação constante e pela construção de “uma escrita própria, grafada com imagens conhecidas ou com polípticos recém-elaborados”, como afirma o Nogueira.

Livro Palavras cruzadas, sonhadas, rasgadas, roubadas, usadas, sangradas:

Por ocasião da mostra, o IMS lança um novo livro de Miguel Rio Branco. Com 160 páginas, a publicação apresenta uma narrativa visual editada pelo artista, com mais de 200 imagens, parte delas presentes na exposição. O livro também inclui textos do curador Thyago Nogueira e da crítica de arte Luisa Duarte. Rio Branco tornou-se mundialmente conhecido por seus livros fotográficos, construídos através de minuciosa edição. Fotolivros clássicos, como Silent Book ou Entre os olhos, o deserto, entraram para a história das publicações e ganharam status de obras de arte.

Homem na janela da parede rosa, 1979, Miguel Rio Branco

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