MÁTRIA – ÊXODOS CONTEMPORÂNEOS | MUSEU DA IMIGRAÇÃO

Mátria – Êxodos Contemporâneos é o nome da instalação de arte multimídia das artistas Eva Castiel, Fanny Feigenson e Fulvia Molina no Museu da Imigração – instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo –, sobre mulheres imigrantes contemporâneas e o elo afetivo fundamental estabelecido entre mães e filhos através das cantigas de ninar,  que passa a ocupar 2.900m² dos jardins do Museu.

Mátria, cujo conceito é intrinsecamente ligado às origens, histórias e antepassados de todos nós, é composta de uma instalação sonora e um vídeo. Constituída de mais de uma dezena de caixas de som espalhadas pelos jardins do entorno do museu, a instalação sonora reproduz, continuamente, canções de ninar – originárias de Portugal, Argentina, China, Japão, Espanha, Itália, Hungria, Brasil, e nossa Amazônia –, entoadas em suas línguas de origem materna, inclusive em iídiche, por mulheres contemporâneas, gravadas especialmente para o projeto.  Estas canções estão disponíveis em uma playlist no Spotify.

Mátria também incluirá uma extensão colaborativa, paralela à instalação, para que o público possa contribuir e incluir suas canções de ninar e memórias preferidas da infância, gravadas em áudio ou vídeo, no Instagram do projeto, ampliando a experiência para além dos muros do Museu.

“Muitas das músicas são apenas cantadas entre os dentes: O sono vem com o ritmo sozinho e a vibração da voz nesse ritmo’’, afirma o curador Márcio Seligman-Silva no texto de apresentação e, citando o poeta espanhol Federico García Lorca, destaca que as canções de ninar têm uma origem popular entre mulheres que sentem a maternidade como um desafio diante de sua pobreza contínua. “As letras das canções vão contra o sono e seu rio tranquilo. O texto provoca na criança emoções e estados de dúvida, terror, contra os quais a mão borrada da melodia tem que lutar, penteando e domando os cavalos empinados que esvoaçam nos olhos da criatura.”

O medo é tema nestas canções, despertado na criança através de personagens como o “bicho papão”, e “empurra-a para o mundo do sono, na sua busca por proteção. Também as suas mães foram empurradas de suas pátrias. Também elas buscam, aqui, construir uma Mátria entre nós”.

Já o vídeo, com o depoimento da jovem universitária venezuelana Saray, que descreve as agruras pelas quais passou – teve que parar os estudos, vender tudo que tinha, para poder sobreviver, até o desafio de migrar para um país estranho – será exibido em looping, em uma instalação na antiga plataforma ferroviária, aonde chegavam os imigrantes que vinham do Porto Santos. Ela fez parte, com seu marido, do primeiro grupo de venezuelanos que chegou a São Paulo, em 2019, através da Missão Paz.

A exposição será inaugurada em 23 de outubro e ficará em cartaz até 26 de dezembro, no Museu da Imigração, edifício no qual funcionou por quase um século (1887 – 1978) a Hospedaria de Imigrantes do Brás, que fazia o acolhimento dos imigrantes que chegavam a São Paulo. Desde 1993, a instituição preserva a história dessas pessoas e fomenta o diálogo sobre as migrações como um fenômeno contemporâneo. “Toda a arte que se põe no mundo é política”, afirma Fulvia sobre Mátrianome que presentifica o universo cultural, afetivo, subliminar, maternal, feminino da terra-mãe e faz um contraponto com pátria, que remete, subliminarmente, ao poder territorial, armado, colonialista, essencialmente masculino. O olhar para o outro, como mulheres, que sofrem preconceito e discriminação (de gênero, etnia e religião), é refletido no conceito da mostra, cujo propósito é o resgate, com foco na mulher migrante, da memória afetiva e da importância da mulher nas migrações, um processo sempre difícil, realizado em meio às incertezas e à dor de deixar para trás família, língua, costumes e, levando consigo a prole, a enfrentar preconceitos e o desafio de fazer a travessia para um novo ambiente físico, econômico e cultural. “Nos unimos através do viés da estrangeira. Não somos de nenhum lugar, somos de nós mesmas”, afirmam as artistas, que juntas, em 2019, apresentaram a exposição [IN]VISÍVEIS – Polacas: Memória e Resistência, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo – também sob a curadoria de Seligmann-Silva, sobre o destino de  jovens mulheres traficadas para a América.

Compartilhar: