Mario Cravo Neto | IMS Rio

Após passar pelo IMS Paulista, a exposição Espíritos sem nome inaugura no IMS Rio no dia 27 de novembro (sábado). A mostra apresenta a obra do fotógrafo, escultor, desenhista e cineasta Mario Cravo Neto (1947-2009). Nome central da arte brasileira do século XX, Cravo Neto criou imagens vibrantes, nas quais investigou temas como a religiosidade, a natureza, o gesto e o sagrado. Com curadoria de Luiz Camillo Osorio, professor da PUC-Rio e crítico de arte, a exposição tem entrada gratuita.

Concebida em parceria com o Instituto Mario Cravo Neto, a exposição foca na produção fotográfica do artista, linguagem que consagrou sua carreira. A seleção apresenta as principais séries produzidas ao longo de sua trajetória, entre as décadas de 1960 e 1990. No total, são exibidos cerca de 322 itens, incluindo, além de fotos, vídeos, desenhos, álbuns, documentos e instalações.

Sem seguir um formato cronológico, a exposição mostra o processo de desenvolvimento da linguagem e da poética do artista, cujo arquivo fotográfico integral de negativos e cromos está sob a guarda do IMS, em regime de comodato (veja mais abaixo). Nascido em 1947, em Salvador, Cravo Neto vem de uma família de artistas, sendo seu pai um escultor consagrado. Ao longo de sua juventude, conviveu com ícones da intelectualidade que frequentavam sua casa, como Carybé, Jorge Amado, Lina Bo Bardi, Marcel Camus e Pierre Verger. Por influência do pai, começou a atuar como escultor. Com o tempo, passou a se dedicar à fotografia, um território amplo de linguagem, técnica e experimentação que se tornaria sua principal atuação.

Em 1969, Cravo Neto se mudou para Nova York. Na nova cidade, matriculou-se na Art Students League, onde entrou em contato com as teorias da arte conceitual e do pós-minimalismo, que influenciariam sua produção posterior. Em seu ateliê, pintava, fotografava e esculpia. Com sua câmera, registrou a rotina e a arquitetura da metrópole, vertical e veloz. A exposição traz uma série de imagens feitas nesse período, com registros de carros, do metrô e dos passantes da cidade, em ângulos por vezes inusitados. Numa vitrine, há cartas que enviou aos pais no período, com fotos das esculturas que vinha produzindo.

Depois da passagem por Nova York, Cravo Neto voltou ao Brasil no final de 1970, participando das Bienais de São Paulo de 1971 e 1973, com esculturas, instalações e fotografias. Em 1975, no entanto, o artista sofreu um grave acidente de carro, que deixou suas pernas imobilizadas por quase um ano. O brusco acontecimento provocou também uma guinada estética em sua produção. Impossibilitado de se movimentar e fotografar na rua, Cravo Neto começou a criar obras inspiradas no momento de reclusão que vivia — como os desenhos feitos a partir do raio-x de seu fêmur quebrado, exibidos na mostra —, além de retratos dos amigos e parentes que o visitavam. Fotografar a família, por sinal, seria um hábito de toda sua vida, como evidenciam as várias imagens presentes na mostra.

Após o acidente, o artista aprofundou seu trabalho no campo da fotografia, especialmente com a produção de imagens encenadas, feitas em seu estúdio. A partir da década de 1980, o trabalho de Cravo Neto ganharia ainda mais fôlego, especialmente com duas séries, exibidas na exposição, Eternal Now e Laróyè, ambas publicadas em livros posteriores. A primeira reúne imagens em preto e branco feitas em seu estúdio, em um fundo infinito. São retratos de modelos com elementos que remetem ao universo simbólico de Salvador e do Candomblé, religião na qual foi iniciado no começo dos anos 2000.

Essas imagens em grande escala também revelam o interesse do artista pelo gesto e pelo corpo, em diálogo com a própria técnica da escultura. Sobre essa nova perspectiva de sua obra, o próprio fotógrafo comentou: “No início (até 1984), eu estava preocupado com o aspecto contemplativo: o que o modelo (o olhar meio perdido) conseguia transmitir para mim, através do seu semblante. Depois fui mais eu a moldar os corpos: tensão, fuga, luta, desafios. Fragmentos sintetizados num perfil, pescoço, músculo, veia.”

Já na série Laróyè, publicada em livro em 2000, Cravo Neto percorreu as ruas de uma Salvador barroca, em busca do espírito oculto que habita nela, transitando entre o sagrado e o profano. Nessas imagens, a cor é um elemento central, revelando as pulsões da capital baiana, como reitera o curador, Luiz Camillo Osorio: “A cor, que já estava presente nas aquarelas e em algumas fotografias de Nova York, ganharia nas ruas de Salvador uma vibração única. Ao mesmo tempo exasperada e contida, a cor é corpo, é arquitetura, é natureza. Ela atiça os contrastes, mas segura a intensidade luminosa.”

Influenciado pelo contato com o etnógrafo Pierre Verger, Cravo Neto buscava retratar a espiritualidade e o sincretismo de sua cidade natal, por uma via narrativa, não documental. A mostra traz desde uma série de fotos nas quais o artista registra ex-votos, esculturas devocionais em madeira, motivado por Lina Bo Bardi, até imagens dos rituais do Candomblé, que Cravo Neto frequentava, como descreve em relato: “Programo a minha máquina de antemão para obter aquela subexposição característica das minhas fotos e depois me lanço de corpo inteiro (e de alma também) na festança: me incorporo nela, e ela me incorpora. Focar na objetiva? Nem pensar. O foco se faz no passo, na dança: um pouco mais perto, um nada mais longe. É caça meio alta para afinar a focalização. A imagem é também fruto desta parte performática do fotógrafo.”

A exposição apresenta ainda uma seção dedicada aos trabalhos mais experimentais do artista, como a série Ninho (1977). A obra, que ele considerava uma das mais importantes de sua carreira, surgiu após seu filho Christian avistar um ninho branco numa árvore do quintal da casa onde moravam. Os passarinhos haviam retirado fibras de vidro de uma escultura do artista, guardada no local, e misturado com palha para fazer sua morada. Fascinado, Cravo Neto colocou o ninho em uma mesa e o registrou em uma série de imagens em preto e branco, de estética minimalista, em diálogo com a temática clássica da natureza-morta.

Nesta seção, está também uma instalação, da década de 1970, que o artista produziu após seu equipamento fotográfico ser roubado. O material — as câmeras, lentes e filtros — foi encontrado dias depois, completamente queimado. A partir desses resquícios carbonizados, ele criou esta obra, exibida na 17ª Bienal de São Paulo, em 1983, e agora remontada. Outro destaque é o vídeo GW-43 (1991) — Golf War 43, em referência ao tempo do vídeo —, feito a partir da tela da televisão durante a guerra do Iraque, fato que impressionou Cravo Neto pelo conflito ter sido transmitido ao vivo. Segundo o artista, “talvez seja a mais livre de todas as minhas peças. Transa com a sincronicidade, com o acaso e com o gestual.”

O conjunto exibido inclui ainda objetos pessoais de Cravo Neto, como câmeras e álbuns, e dois cadernos de colagens, nos quais o artista reunia fotos, anotações, folhetos, cartas, recortes de revista e outros itens, numa espécie de diário visual do seu cotidiano de criação.

Em cartaz até abril de 2022, a exposição apresenta um panorama da obra de um fotógrafo plural, que, a partir do cruzamento entre as linguagens, criou uma poética própria “que lida com as dualidades marcadamente modernas entre natureza e cultura, construção e acaso, luz e sombra, austeridade e extroversão”, como afirma o curador.

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