A exposição Ralo, individual de Marina Saleme, apresenta mais de 20 pinturas inéditas em diferentes dimensões, acompanhadas de texto crítico de Galciani Neves. Na mesma ocasião, a Act Arte lança Marina Saleme, publicação que traça um amplo panorama da trajetória artística de Saleme. O livro, organizado pela própria artista, reúne pinturas, desenhos e trabalhos que atravessam distintos momentos de sua produção e conta com textos críticos de Ana Maria Belluzzo, Felipe Scovino e Tadeu Chiarelli.
Contemplação do ato de desaparecer
Nas mais de 20 obras que compõem Ralo, Marina Saleme mostra que segue movida pelo gesto de descobrir a cor na superfície da tela, deixando-se conduzir pelo processo de elaborar o que a pintura pode ser enquanto pinta, e motivada pelo desejo de se surpreender com os novos desafios de linguagem e de experimentação diante da tela.
Por meio de rios, mares, céus e rochas, que se entrecruzam e se unificam, a artista reflete sobre um derretimento do mundo, como se tudo o que está sobre a terra tivesse um destino, um fluxo, uma impermanência, um tempo linear irreversível, que desemboca em um ralo, no ato de escoar.
De acordo com Galciani Neves, que assina o texto crítico da exposição, Ralo narra o pensamento de Saleme, que se embrenha entre suas pinturas a partir de um tempo que não cessa, não pausa, e que se esvai como uma espécie de durante sempre fugidio.
“Essa sensação surge em pinceladas e construções pictóricas que escorrem, que estão em movência, que se circunscrevem ora como rastros, ora como uma presença, por si só e com o espaço, e, que, assim vibra, em uma complexidade de significâncias, em que a paisagem não é apenas fato ou reconhecimento de uma imagem, mas uma fabulação temporária e sempre cambiante”, afirma a curadora. “Nesse conjunto de trabalhos, a artista nos diz de um tempo que, como descreve o poeta Manoel de Barros, só tem ‘ida’.”
Trajetória da artista em mais de 200 páginas
Por ocasião da abertura da mostra, a Act Arte — casa editorial sob direção de Fernando Ticoulat — lança o livro monográfico Marina Saleme, que, ao longo de mais de 200 páginas, apresenta um panorama da produção da artista, destacando mais de três décadas dedicadas à pintura e à fotografia. O livro evidencia como, entre atmosferas de silêncio, melancolia e suspensão, Saleme trabalha com a instabilidade das imagens: formas revelam-se ao mesmo tempo em que são ocultadas por camadas de tinta, véus de cor e rastros de matéria.
Temas como fragilidade, incerteza, dissolução e aparição — seja em paisagens fantasmagóricas, figuras esfaceladas ou cenas cotidianas que se tornam enigma — são foco de ensaios críticos de Felipe Scovino, Ana Maria Belluzzo e Tadeu Chiarelli, que contextualizam a pesquisa da artista no campo da pintura contemporânea brasileira, analisando sua relação com o neoexpressionismo dos anos 1980, sua passagem por experimentações matéricas nos anos 1990 e sua expansão para a fotografia nas séries dos anos 2000 e 2010. Ao longo do livro, imagens de obras, séries e detalhes de pinturas revelam um fazer artístico guiado pela intuição, pelo tempo e pelo mistério.
A publicação, editada por Yasmin Abdalla, Paula Nunes e Marina Dias Teixeira, e publicada pela Act Arte, é uma realização do Ministério da Cultura e conta com patrocínio do Itaú, apoio de Marina Saleme Estamparia e apoio institucional da galeria Luisa Strina.

