Marina Saleme | CCBB-RJ

No dia 6 de outubro, o Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro inaugura a exposição “Apartamento s”, da artista paulistana Marina Saleme, composta por uma grande instalação, com cerca de 1500 obras, dentre desenhos e pequenas pinturas, recentes e inéditas, produzidas nos últimos três anos, que tratam de temas como a espera, a solidão e a separação.  Os desenhos estarão dispostos em uma grande parede, de 5,70m X14m, na Sala B, no segundo andar do CCBB RJ, ocupando do chão ao teto do espaço, formando uma imagem monumental e fragmentada.

Conhecida pelas pinturas em grandes dimensões, a artista criou, para esta exposição, uma instalação com obras em pequenos formatos, com tamanhos máximos de 25cm X 35cm, que reproduzem uma mesma figura: uma mulher sentada, com as mãos nos ombros, a cabeça abaixada, as pernas e os pés tensos. Apesar de reproduzirem a mesma imagem, nenhum é igual ao outro. Dependendo do ângulo, essa figura parece estar desesperada, cansada ou pensativa”, conta a artista.

O nome da exposição, “Apartamento s”, tem dois sentidos, o de moradia e o de estar apartado. O S, separado, traz a ideia de um indivíduo no meio da coletividade. “Uma cidade é uma multidão de pessoas, mas também uma multidão de pessoas solitárias, como a mulher do desenho. É um mundo apartado no sentido íntimo e plural”, diz Marina Saleme, que sugere que o grande desenho formado pelas pequenas obras se assemelha a um mapa de uma cidade ou a planta baixa de um imóvel. “Entre os blocos de desenhos, abre-se um espaço, que poderia ser as ruas ou o espaço entre os ambientes de um imóvel”, completa.

Os desenhos começaram a ser produzidos cerca de um ano antes da pandemia. Ao folhear uma revista de arte, a fotografia de uma mulher sentada chamou a sua atenção. “Não era uma imagem muito grande, mas ela me impactou e voltei a página, o que quase não acontece num mundo com tantas informações”, conta Marina Saleme, que começou a desenhar a figura incessantemente. “Quando comecei a desenhar, pensava no social, no isolado, no sozinho. Mas, ao colocar um desenho ao lado do outro, a obra fez todo o sentido. Logo em seguida, veio a pandemia e o trabalhou ganhou ainda mais sentido”, afirma a artista.

“Embora a série se inicie antes da pandemia, não resta dúvida de que seu significado ganha conotações de um drama ainda mais intenso, se ligarmos a figura ali feita e refeita centenas e vezes à situação em que vivemos. Porém, seria importante que não nos esquecêssemos de um fato: como obra de arte que é, Apartamento s, ao mesmo tempo em que se impõe como registro de sua conjuntura, do espírito do seu tempo é, igualmente, a transcendência de si mesma e de sua circunstância histórica”, afirma o historiador da arte e curador Tadeu Chiarelli, que assina o texto crítico que acompanha a exposição.

As obras são feitas em técnica mista, em suportes diversos, como papel 100% algodão, papel de arroz, lona e papel de caderno, e os desenhos são feitos com tinta e caneta. Na instalação, os papeis iguais são postos juntos na parede, em blocos, e são presos por pregos, sem moldura, como folhas soltas.

“O que Marina vivenciou durante a produção da série foi um jogo: repetia o desenho de olho na matriz, produzindo algum tipo de ação sobre ele: modificava o fundo com cores, descaracterizava as linhas que contornam a imagem, apagava o rosto da figura, cobrindo-o com a ação violenta do grafite até quase mutilar o suporte para, num próximo desenho, trazer a imagem de volta, revelando-a a partir de outros modos de representa-la, em um vai e vem infinito”, escreveu Tadeu Chiarelli.

 

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