Maria Martins | MASP

O Impossível, década de 1940 | FOTO: Vicente de Mello

O Museu de Arte de São Paulo apresenta, a partir de 27.8.21, a mostra Maria Martins: desejo imaginante, em cartaz até 30.1.22. Com curadoria de Isabella Rjeille, curadora no MASP, a exposição trará 45 esculturas, gravuras, desenhos e pinturas da artista mineira produzidas entre as décadas de 1940 e 1950, além de documentos, publicações e fotografias que narram a trajetória de vida da artista. A exposição Maria Martins: desejo imaginante e sua respectiva publicação são as mais amplas organizadas sobre a artista, buscando reposicionar Martins na história da arte brasileira e internacional. Fruto de uma parceria com a Casa Roberto Marinho, a mostra viajará para a instituição carioca, onde será inaugurada no dia 12.3.2022 e permanecerá exposta até o dia 26.6.2022. A mostra na Casa Roberto Marinho contará com a apresentação de Fernanda Lopes, curadora adjunta deste projeto.

No MASP, a abertura coincide com a de Gertrudes Altschul: filigrana, sobre a fotógrafa alemã radicada no Brasil, cuja curadoria é de Adriano Pedrosa, diretor artístico na instituição, e Tomás Toledo, curador-chefe no museu. Neste ano, o museu, guiado pelo tema das Histórias brasileiras, terá exposições exclusivamente de artistas mulheres. No mesmo dia, 27.8, o MASP abre a Sala de vídeo: Zahy Guajajara, com curadoria de Adriano Pedrosa, e Acervo em Transformação: doações recentes que reúne 14 obras de artistas incorporadas à coleção do museu e expressa o trabalho contínuo que tem sido realizado com o objetivo de fortalecer a presença de mulheres no acervo. A curadoria é de Adriano Pedrosa e Amanda Carneiro.

A mostra Maria Martins: desejo imaginante é dividida em cinco núcleos – Imaginários amazônicos, Como uma liana, Por muito tempo acreditei ter sonhado que era livre, Duplos impossíveis e Mitologias pessoais – que abordam como a artista articulou os diversos imaginários acerca do Brasil e dos trópicos ao longo de sua produção — um lugar reivindicado, reafirmado e reinventando por ela. “O fato de ter desenvolvido grande parte de seu trabalho no exterior a impediu de participar ativamente dos movimentos modernistas brasileiros. Porém, Martins não deixou de realizar suas leituras e contribuições únicas a respeito de certa visualidade nacional, o que acabou lhe rendendo a alcunha de ‘escultora dos trópicos’. A artista buscou nas mitologias amazônicas e na cultura afro-brasileira referências para as suas primeiras obras, dialogando com as tendências modernistas brasileiras da primeira metade do século 20. No entanto, a partir de meados dos anos 1940, a artista deixa de lado certa visualidade comumente associada ao Brasil e passa a criar suas próprias mitologias em bronzes de médias e grandes proporções”, conta Isabella Rjeille.

MARIA

Maria de Lourdes Faria Alves (1894-1973) nasceu em Campanha, no sul de Minas Gerais, e recebeu uma educação tradicional. Seu segundo casamento, em 1926, com o embaixador Carlos Martins Pereira e Sousa (1884-1965), a levou a viver contextos decisivos para sua experiência como artista. Em virtude do trabalho diplomático de seu marido, a artista passou grande parte de sua vida adulta fora do Brasil, retornando ao país apenas em 1950. Se, por um lado, essa união possibilitou recursos financeiros, tempo e espaço para trabalhar livremente como escultora, além de um intenso trânsito internacional que Martins utilizou a seu favor e em favor de outros artistas, por outro, deu-lhe o título de “embaixatriz” que, por vezes, se sobrepunha ao de artista. A artista criou estratégias para descolar essas duas imagens, preferindo, por exemplo, ser chamada apenas de “Maria” no contexto artístico, deixando de lado o sobrenome do marido.

Maria Martins e Ma chanson [Minha canção], 1944
| Autoria desconhecida |
Cortesia: Elisa Gomes

TRAJETÓRIA INTERNACIONAL

Depois de viver em Quito, Paris, Copenhague, Tóquio e Bruxelas, o casal se estabeleceu, no final da década de 1930, nos Estados Unidos e, a partir de então, a carreira da artista se consolidou. O início dos anos 1940 nos Estados Unidos foram marcados por políticas governamentais de aproximação com os países latino-americanos no contexto da Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o então presidente Getúlio Vargas investia na exportação de certa cultura brasileira como parte de sua política de estado. Era o momento em que o Brasil habitava o imaginário internacional enquanto um país tropical, exótico e alegre, distante dos horrores da guerra. Neste contexto de disputas políticas, Maria Martins participou de suas primeiras exposições coletivas em 1940 e realizou sua primeira exposição individual na Corcoran Gallery em Washington em 1941, onde obteve grande sucesso de vendas e incorporação de seus trabalhos às coleções institucionais estadunidenses. Seus trabalhos estão presentes nos acervos de diversos museus como o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York e de San Francisco, Metropolitan Museum of Art, Philadelphia Art Museum, Brooklyn Museum e, no Brasil, nas coleções do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Pinacoteca do Estado, entre outros.

Em 1942 e 1943, realizou mais duas individuais, dessa vez na Valentine Gallery, em Nova York. Ela havia estabelecido seu ateliê na cidade – mantendo-se fisicamente distante do clima “oficial” de Washington, onde seu marido era embaixador, e aproximando-se da vibrante cena artística nova-iorquina. Lá, começara a estudar fundição em bronze com o artista lituano Jacques Lipchitz (1891-1973), utilizando-se da técnica da cera perdida, que se tornaria sua principal linguagem enquanto escultora.

As primeiras exposições na Valentine Gallery chamaram a atenção de André Breton (1896-1966) e do grupo dos surrealistas que se exilaram em Nova York durante a Segunda Guerra. À época, Breton buscava incluir no movimento artistas e mitologias não europeias e o trabalho de Maria se encaixava perfeitamente nesse requisito. Parte destes primeiros trabalhos em bronze da artista eram inspirados pelas mitologias indígenas amazônicas, como Amazônia (1942) e Cobra Grande (1943). A Amazônia se tornou uma referência inicial para a artista, que aos poucos foi desenvolvendo seu próprio imaginário por meio da criação de esculturas nas quais figuras pareciam se confundir entre humanos, animais, vegetais e minerais.

“A partir de 1944, os trópicos imaginados de Martins ganham uma nova camada de significado. Seus títulos passaram a ter ares mais ‘literários’, deixando um pouco de lado as mitologias amazônicas para trabalhar suas mitologias pessoais”, afirma Rjeille. Questões relacionadas ao desejo, ao erotismo e a uma certa ideia de feminino – que sempre estiveram presentes em sua prática – ganham ares “monstruosos” e inquietantes, desafiando a moralidade da época e as expectativas de um público estrangeiro a respeito do trabalho de uma artista brasileira. Obras como O impossível (década de 1940), N’oublies pas que je viens des tropiques [Não se esqueça que eu venho dos trópicos] (1945), Glèbe-ailes [Gleba-asas] (1944) são algumas das mais representativas do período e estarão na exposição.

CHEGADA AO BRASIL

Depois de quase uma década nos Estados Unidos, o casal Martins muda-se para Paris, onde vivem de 1948 a 1950. Nos anos 1950, Carlos e Maria retornam ao Brasil e se mudam para o Rio de Janeiro. É apenas na década de 1950, aos 56 anos, que a artista tem suas obras expostas pela primeira vez ao público brasileiro. Sua primeira exposição individual foi no Museu de Arte Moderna de São Paulo e na Associação Brasileira de Imprensa (Rio de Janeiro). Ela também expôs suas esculturas na 1ª, 2ª e 3ª Bienal de São Paulo, sendo agraciada na última com o Prêmio Regulamentar de Escultura Nacional (1955) e, mais tarde, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1956), sua última individual em vida.

Por aqui, no entanto, enfrentou muitas críticas. “Era vista como uma madame, a mulher do embaixador. Matérias em jornais e revistas referiam-se a ela na maioria das vezes como embaixatriz, não como escultora ou artista”, explica Fernanda Lopes em seu texto para o catálogo da exposição. “Maria incomodava a crítica e o meio artístico brasileiros – patriarcais, basicamente composto por homens – com seu erotismo canibal, agressivo. Não estavam acostumados a violência e crueza como aquelas, vindas de uma escultura, especialmente porque feita por uma mulher, desquitada, com muitas figuras femininas ou girando em torno da presença, do desejo e da força femininos”, completa. O cenário tornava-se ainda mais desfavorável pois por aqui a arte abstrata geométrica, muito diferente do trabalho desenvolvido por Maria, começava a despontar.

Sem título [A grande coroação?], circa 1940 | Coleção Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro | FOTO: Vicente de Mello

ARTISTA, ARTICULADORA E ESCRITORA

Martins foi ainda uma figura central na internacionalização da arte brasileira e exerceu um importante papel de articuladora para as instituições de arte que se modernizavam no Brasil. Envolveu-se, por exemplo, na viabilização das primeiras edições da Bienal de São Paulo e na aquisição de importantes obras para o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), onde atuou como conselheira.

A artista também se dedicou à escrita. Ainda em vida, publicou os livros Ásia maior: o planeta China (1958) – ela foi a primeira latino-americana a entrevistar o líder comunista e revolucionário chinês Mao Tsé-Tung (1893-1976) – Ásia maior: Brama, Gandhi e Nehru (1961) e Deuses malditos I: Nietzsche (1965), além de manter a coluna Poeira da Vida no jornal carioca Correio da Manhã.

CATÁLOGO

A publicação ilustrada (com versões em português em inglês) tem como objetivo examinar a atuação de Martins enquanto artista e intermediadora cultural, ampliando o recorte curatorial trazido pela mostra. Os ensaios analisam a recepção e os diálogos que sua obra estabeleceu nos diferentes contextos em que circulou, do Brasil, passando por outros países da América Latina, pela Ásia, Europa e pelos Estados Unidos. Os textos são assinados pelas curadoras e por Tirza True Latimer, Beverly Adams, Terri Geis (único não inédito), Veronica Stigger, Alyce Mahon, Joanna Fiduccia, Mariola V. Alvarez, Marina Mazze Cerchiaro. O catálogo contempla ainda uma nota biográfica de Laura Cosendey. Mais informações: pelo site masploja.org.br e na loja física do museu.

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