Maria Lira Marques | Bergamin & Gomide

Maria Lira Marques, Sem título, 2021 | FOTO: Ding Musa

A Bergamin & Gomide tem o prazer de apresentar a exposição Maria Lira Marques: Obras recentes, com texto crítico do curador Rodrigo Moura, que acontece de 21 de agosto a 1º de outubro de 2021, na Casa Flávio de Carvalho.

A individual apresenta pinturas em que a artista utiliza o barro como matéria prima, criando um imaginário próprio da fauna e flora sertaneja; o resultado são obras que se destacam pela textura orgânica, cuja paleta de cores remete às técnicas desenvolvidas ao longo de gerações no Vale do Jequitinhonha, local onde nasceu e vive até hoje.

Maria Lira faz parte de uma longa e profícua linhagem de artistas no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Nos anos 1970, começou a expor seu trabalho autoral em cerâmica, como bustos,
presépios e as máscaras antropomórficas evocativas da sua herança africana e indígena. A artista traça a genealogia de sua vocação artística a partir da influência de sua mãe, que trabalhava como
lavadeira e exercia em paralelo seus dons manuais com a cerâmica. Paralelamente à cerâmica, Maria Lira desenvolveu uma pesquisa musicológica a partir da forte tradição oral de sua região.

Desde os anos 1990, ela vem se dedicando ao corpo de obra pelo qual se tornou mais conhecida, Bichos do Sertão, pinturas de animais imaginários que compõem um vasto bestiário que se caracteriza pela integração de sua linguagem gráfica com a paisagem sertaneja. Essas obras são desenhadas com uma mistura de barro e cola sobre papel ou seixos rolados, usando paleta cromática terrosa e texturas orgânicas, resultando em superfícies pictóricas de forte impacto visual.

Além de ser uma artista com mais de quarenta anos de carreira, Maria Lira é também uma pesquisadora, ativista e divulgadora da cultura popular, sobretudo das raízes indígenas e negras,que, como ela aponta, normalmente são invisibilizadas e negligenciadas pela sociedade. “O negro  como o índio são as pessoas mais massacradas pela sociedade”, disse a artista em uma entrevista
de 1983. “Não que a opressão esteja somente nessas minorias, pois que está geral, mas a gente vê muito bem e sente na pele que o negro, às vezes, não é aceito pela sociedade; o índio você vê que
também está muito explorado (…). E [esta] é a minha cultura.” Em 2010, ela participou da fundação do Museu de Araçuaí, em parceria com frei Xico, o frade holandês Francisco Van der Poel, com
quem mantém interlocução há cinco décadas. O museu foi criado com o objetivo de abrigar um acervo de objetos e documentos que registram a religiosidade, os usos e costumes e os ofícios que constituem a história de Araçuaí, um dos principais polos de cultura popular do país.

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