Maria Klabin | Nara Roesler

Nara Roesler São Paulo tem o prazer de convidar para a abertura, no dia 26 de novembro de 2025, às 18h, da exposição “Língua d’Água”, com obras inéditas e recentes da artista Maria Klabin (1978, Rio de Janeiro), em sua primeira individual na cidade. Com curadoria de Galciani Neves, a mostra apresenta trabalhos criados pela artista, principalmente ao longo do ano, em pinturas e desenhos, em tamanhos variados. Os trabalhos ocuparão as salas do térreo, no lado direito da Nara Roesler, e também dois espaços do segundo andar.

O título “Língua d’Água” foi retirado de uma frase dita por Maria Klabin à curadora: “O pincel é como uma língua que lambe a tela trazendo os ecos de algum lugar”.

“As pinturas de Maria nos colocam de maneira simples que não é necessário fincar os pés nos diversos problemas filosóficos submetidos ao exame da razão, mas apontam para algo que nos renderia um enorme efeito, se nos dedicássemos: o que aprenderíamos se repousássemos sobre os redemoinhos da percepção? Devaneando, devaneando… E se ao invés de controlarmos as coisas, habitássemos seus mistérios, olhando-as bem de perto e de distintas lonjuras?”, salienta Galciani Neves no texto que acompanha a exposição. “Em ‘Língua d’água’, o exercício poético da artista segue por esses caminhos: ‘A pintura inverte a ordem das coisas, muda o que vemos e como vemos’”, destaca a curadora.

Maria Klabin conta que tende a pintar “as coisas que estão ali no meu entorno, e isso inclui as pessoas com quem tenho mais intimidade, que convivem comigo”. “Tem épocas que eu pinto bastante fora do ateliê”, continua, “nesses momentos de repouso, de lazer”. “Como são momentos de silêncio, a pessoa acaba dormindo”, explica ela sobre o fato de em suas pinturas haver pessoas adormecidas. “Desde sempre, desde a adolescência, isso acontece. E eu acabei vendo coisas interessantes nesse processo de pintar pessoas dormindo”, diz.

ESPAÇO SEGURO PARA SE SENTIR VULNERÁVEL: CONDIÇÃO DA PINTURA

“A pessoa está ali totalmente entregue, e isso acontece justamente porque existe uma intimidade. A gente só dorme na presença de alguém nos observando quando estamos muito à vontade para essa entrega. E gosto de pensar no meu ateliê como uma extensão desses momentos. Um espaço onde eu posso me sentir segura para ser vulnerável também.  Tem uma vulnerabilidade que é inerente ao processo da pintura. Você está pintando e entra num outro lugar. O corpo está num lugar, mas você está em outro. Então você tem que se sentir seguro para dar esse salto, e o ateliê deve ser um lugar que acolha esse processo. Percebi que isso acontece também com as pessoas que eu pinto. Ali é como se elas fossem o pintor, e eu testemunha desse salto e dessa entrega. Acredito que a pintura e o sonho venham do mesmo lugar”, reflete a artista.

PAISAGEM PELO QUE ESTOU CERCADA – CAÇA CONSTANTE E SILENCIOSA

Nos trabalhos de Maria Klabin há paisagens, além de retratos. A artista comenta que usa “a paisagem pela qual eu estou cercada”, que tanto pode ser composta por objetos ou plantas, que para ela “são indivíduos”. “São as paisagens com que eu estou convivendo”. “Noto um conjunto de movimentos, de elementos, que eu posso usar na pintura, e acabam sendo um ponto de partida para falar sobre algo mais internalizado e intuitivo do que exteriorizado, como estaria implícito numa paisagem”, observa. Fotografias também são utilizadas, mas servem como pistas para ela “falar de coisas mais da pintura e de um estado de espírito”. “Às vezes eu incluo figuras, às vezes animais, e uma parte grande é de memória, ou (de bichos) ‘inventados’. É um exercício compositivo também, de movimento, de pintura”.

Maria Klabin conta que está “sempre meio em busca, olhando ao redor, procurando coisas que são um pouquinho estranhas, ou que são um pouquinho mais do que elas mesmas”. “É como se eu tivesse numa caça constante e silenciosa por coisas que parecem prontas pra se transformar em outra que sejam mais do que elas revelam para mundo”.

ESTOU DESENHANDO O TEMPO TODO

“Língua d’Água” terá mais de quarenta desenhos, em um trabalho de seleção de Galciani Neves entre os mais de trezentos da artista, que diz: “Estou desenhando o tempo todo. Desenho em casa. Se eu pego uma gripe, não venho para o ateliê, fico em casa desenhando. Às vezes acho que a minha pintura é muito mais desenho, porque estou mais ligada na linha e no processo, sem estudo prévio e sem preparo, num embate direto com a tela, com o plano e com o pincel. Agora estou usando mais bastão a óleo, porque não tem a interrupção do pincel que tem que logo molhar de novo na tinta”. “O desenho é muito rápido, ultrapassa o pensamento, e sou mais do gesto, do movimento com o corpo todo, da linha, do que da relação de cores, embora, claro que eu uso cor, faz parte de falar essa língua. Mas é nesse lugar, onde o desenho termina e a pintura começa, onde me sinto melhor e gosto mais”, destaca Maria Klabin.

Ela detalha que junto com a curadora decidiu incluir na exposição uma parede com desenhos, “em que há de todo tipo: arrancados do caderno, anotações, mais ou menos acabados”. A ideia é mostrar ao público esse processo, “porque eles (os desenhos) nasceram durante a construção dessas pinturas, e alguns são anteriores, mas também guardam uma relação com as obras mostradas”.

VIRADA DE CHAVE

Maria Klabin conta que a cada três, quatro anos, dá “uma virada de chave no trabalho”. “Meu trabalho muda muito, seja na escala ou na forma, mas mesmo eu tirando meu próprio tapete, pra me sentir num território novo e descobrir alguma coisa, eles sempre encontram um ponto de encontro”, salienta.

Estará na exposição a pintura “Gal” (2023), tinta óleo sobre linho, 220 x 300 x 3,5 cm, exibida antes apenas na individual da artista que Nara Roesler fez na feira Frieze Los Angeles 2024. Maria Klabin conta que a pintura integra “Linha d’água” por ser a primeira em escala maior que fez “com elementos mais alegóricos, mais oníricos”. “As paisagens grandes já tinham esses elementos, mas isso ficou mais evidente na ‘Gal’, e esta é uma coisa que eu explorei com mais foco nessa exposição”, diz. “Durante a pandemia”, ela explica, “comecei a trabalhar muito de observação, sem sair da realidade dentro do possível, na pintura. E a ‘Gal’ foi feita neste outro momento. Pintar dessa maneira foi o que fez sentido para mim. Parti da imagem dessa mulher grávida, que é minha cunhada, que estava grávida da minha sobrinha Gal”.

“Sempre começo com um fundo mais abstrato, jogo umas cores e vejo como elas interagem, e aí pinto por cima.Parto disso pra fazer alguma coisa”, diz. “E às vezes eu enveredo um pouco por esse caminho”, continua, “da pintura meio pura sem nenhum objeto de partida”.

Estarão ainda três retratos pequenos que Maria Klabin fez de Giacometti (1901-1966). A artista viu um vídeo na internet com Giacometti esculpindo. Em um determinado momento, em que há um close do rosto do escultor, ela percebeu que era “justamente o instante em que o artista está nesse lugar mais exposto”. “O olho dele subia e descia, ia pro trabalho, para a pessoa, para a obra, para o sujeito, olhando para o objeto, olhando para o que ele estava fazendo, e havia uma bagunça em volta dele. Eu quis fazer três desenhos, rápidos, dele nesse estado. Isto entra na mesma discussão ‘de que lugar é esse em que está o artista’? Essa ponte, esse trânsito que o olho faz entre o inconsciente e o que está no mundo. Quero fazer mais”, conta.

LIVRO “MARIA K.” (2025, NARA ROESLER BOOKS)

Em fevereiro de 2026, durante a exposição “Língua d’Água”, será lançado o primeiro livro dedicado à trajetória de Maria Klabin. O livro“Maria K.” (2025, Nara Roesler Books) terá 114 páginas, bilíngue (português e inglês), capa dura, com formato de 17,5 x 24,5 cm, e textos inéditos de Priscyla Gomes, Pollyana Quintella e apresentação de Luis Pérez-Oramas.

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