A Galeria Karla Osorio, de Brasília, inaugura duas exposições individuais:
MINHAS MÃOS SÃO SEUS CAMINHOS, de Robson Marques, com mais de dez obras inéditas do artista. Baiano de Feira de Santana e radicado em São Paulo, Marques integra o grupo Vilanismo, irmandade de homens negros artistas que participou da 36ª Bienal de São Paulo;
e CONDENSAR TEMPOS, do artista paulista Marcos Roberto, reúne 15 obras de várias séries que têm o metal como matéria-prima. Operário que se descobriu artista no ofício, Marcos desponta como nome promissor das artes visuais brasileiras.
MINHAS MÃOS SÃO SEUS CAMINHOS é a primeira exposição individual de Robson Marques, artista brasileiro natural de Feira de Santana, no Agreste baiano. Cidade nascida do cruzamento, era ponto de parada de tropeiros e boiadeiros e hoje é o maior entroncamento rodoviário do Norte-Nordeste. Vir desse chão já é vir de um caminho, e é isso que a produção de Robson reafirma desde sempre: ele não inventa o cruzamento, apenas o segue.
O artista carrega em si duas migrações: a primeira, de corpo, até São Paulo, onde vive e trabalha. A segunda, de linguagem: um repertório visual forjado na Baía de Todos-os-Santos, levado para territórios que ainda não o conhecem. Porque a Bahia, no fundo, é isso: todos os santos, todos os Silva, todos os Souza, um sobrenome que cabe em qualquer um que carregue esse chão consigo.
Se o caminho se faz com as mãos, é porque nada aqui chegou pronto. O gesto de fazer atravessa a exposição; arrumar, tecer, pintar, transmitir, em corpos, tecidos, camisas de time, mãos que se encontram, santos e cortejos.
O que se herda precisa ser refeito, a cada geração, com as próprias mãos. Uma mão que se estende para outra é gesto de transmissão — o caminho sendo repassado, ensinado, refeito. Cães, ruas, feixes de flores, bandeiras: tudo pertence a um mesmo corpo de memória em movimento. O conjunto de obras mostra o caminho sendo feito, mão por mão, que se sustenta em terreno novo.
CONDENSAR TEMPOS reúne 15 obras de Marcos Roberto dos últimos quatro anos, em sua primeira individual em Brasília. O conjunto sintetiza parte de seu percurso tão original, de metalúrgico a artista visual: uma produção visceral e comprometida com sua própria história, que condensa tempos diversos em diálogos complexos para projetar um futuro melhor. O trabalho não se esconde, está presente nos materiais, reforçado pelas pinceladas vigorosas e escancarado pela força de peças detalhadamente elaboradas. Na lida com o ferro bruto e pesado, o artista cria poesia. O material se torna leve, fluido, porém o conteúdo ressalta sua força na crueza das temáticas sociais que aborda.
Em síntese, com sua obra única e de técnica inovadora, Marcos nos permite encontrar poética e leveza em algo feito para ser rígido. Ele consegue dar movimento ao que era estático para falar de um mundo cuja transformação deseja. O metal, material áspero e cortante, se converte em pinturas e esculturas pungentes e delicadas, com paletas de cores suaves, projetando suas mensagens por meio da reinvenção da natureza.

