Márcia Falcão | Carpintaria

Marcia Falcão, Moça reclinada no fio do facão: presa em casa, 2021 | FOTO: Eduardo Ortega. Cortesia Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro

a Carpintaria Tem o prazer de anunciar a primeira exposição individual de Márcia Falcão. Marcada pelo gesto e fisicalidade, sua pintura articula relações entre o corpo feminino e a cidade, partindo da experiência da própria artista na periferia do Rio de Janeiro, onde nasceu, vive e trabalha. O que se apresenta são composições figurativas numa palheta soturna pautada centralmente por marrons e vermelhos, que se adensam no emprego do óleo, da acrílica, do pastel oleoso e do carvão, com uma maior carga de impasto em regiões específicas. Carregadas de um ethos de violência, entre a gestualidade e a narrativa, surge uma pintura de forte impacto visual.

Márcia Falcão, A rua e um tabuleiro só para rainhas, 2021 | FOTO: Eduardo Ortega. Cortesia Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo / Rio de Janeiro

LEIA ABAIXO TEXTO DO CURADOR RAPHAEL FONSECA PARA A MOSTRA

Cacos vermelhos
Por Raphael Fonseca

Ao observar as pinturas recentes de Márcia Falcão, um elemento talvez chame a atenção do espectador: o chão onde essas narrativas se desenrolam costumam ser vermelhos e fragmentados, como se víssemos a representação de uma sucessão de cacos. De certa maneira, sim, essas pinturas simulam chãos muito comuns no “subúrbio carioca” – precisamente no bairro onde a artista foi criada, Irajá. Esse elemento arquitetônico, porém, não é algo encontrado apenas ali, mas em todo o Brasil – da São Paulo dos anos 1940 à chamada arquitetura raio-que-o-parta em Belém do Pará. A pintura desenvolvida pela artista se movimenta da mesma forma – entre o que poderia ser visto como particular e local, e uma esfera mais ampla que convida a muitas reflexões.

As muitas invasões que já aconteceram no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, são o ponto de partida para a pintura de escala monumental, peça central da primeira exposição individual da artista. Aqui, no emaranhado de pinceladas rápidas que dão a matéria das montanhas e de algumas figuras na base da pintura, uma série de elementos se destaca – um helicóptero, o bondinho, uma bandeira vermelha e uma bandeira do Brasil, que surge como em um fantasma da “Liberdade guiando o povo” (1830), de Delacroix. Em destaque, a figura de uma mulher que, com expressão melancólica, fita o espectador – ela é negra, tem um corpo curvilíneo e sobre a sua cabeça há um esplendor de Carnaval em cores verde-e-amarelas.

A “mulher brasileira” tão sexualizada, objetificada e estereotipada por centenas de autores nas artes visuais e na cultura de massa, não se encontra sambando e cheia de purpurina ao som de “Lá vou eu, lá vou eu / hoje a festa é na avenida”. A pesquisa de Márcia Falcão parece nos lembrar da constante tensão entre prazer e violência, entre a festa que se dá na avenida e a violência que acomete tantas mulheres ao seu redor. Longe de apontar dedos, são imagens que corporificam contradições do estar viva no Rio de Janeiro, no Brasil e em qualquer lugar do mundo.

O corpo que aparece em Moça reclinada no fio do facão: presa em casa (2021) faz referência ao próprio corpo da artista e pode ser observado em outras obras que, em menor escala, apresentam situações mais concisas. Deitada entre o chão vermelho e o corte de uma faca, uma mulher sangra e o líquido escorre até a margem inferior da tela. Seu braço se recosta sobre um muro cheio de vidro, elemento visto em muitos bairros do Rio de Janeiro para proteger o espaço privado da casa. O espaço doméstico sugerido por Márcia Falcão parece ser um território de solidão, conflito e pequenas violências. Em Cacos internos, dores expostas (2021), uma mulher parece abrir as suas costas e mostrar as suas entranhas, ao passo que, em Esconderijo e cela (2021), a mesma figura está deitada e, ao seu redor, uma área preenchida por pinceladas de um vermelho denso parece atormentá-la. De pouco a pouco, a artista sugere um inventário de situações desconfortáveis que rodeiam a personagem – ou seria a si mesma?

É interessante notar como as pinceladas escorridas da artista proporcionam um espaço para a incerteza. O que seria aquela sucessão de vermelhos, uma referência à carne e ao sangue? Esses riscos pretos que aparecem no topo de algumas pinturas citam o emaranhado de fios e de conexões falhas também tão vistos no Rio de Janeiro? Longe de nos responder tudo de uma vez, a artista está interessada em nos entregar uma das coisas que mais ama na vida – a pintura e sua capacidade de criar detalhes sem um significado cerrado. Diferente, portanto, de tantos pintores de sua geração que fazem imagens explícitas e folclorizantes em torno da ideia de “periferia”, Márcia Falcão tem um pé em Irajá e o outro onde quer que ela queira. Como diria Beyoncé, “I’m a grown woman / I can do whatever I want”.

Por fim, Ensaio sobre 80 tiros e cal a meio tronco (2022) chama a atenção pela ausência do corpo humano. A obra referencia um episódio recente que chocou o país: os oitenta tiros disparados pelo exército sobre o carro de uma família negra no Rio de Janeiro. Na mesma imagem, conversando de forma inusitada com o acontecimento, vemos uma série de árvores pintada de cal até meio tronco. Em uma conversa com a artista, ela comentou como sentia — nos relatos familiares e de seu bairro — o racismo por trás desse costume: ao pintar um tronco de branco, o proprietário de uma casa poderia perceber se alguém negro entraria em seu terreno de noite.

Essa pintura, portanto, reúne diferentes narrativas que versam sobre o racismo no Brasil – o espetáculo da violência caminha lado a lado com tradições que compõem a cultura de um lugar. Sem se valer da representação do sangue para fazer eco a essa tragédia carioca, Marcia Falcão opta por trazer de volta aquele chão vermelho em pedaços. Qual a necessidade do sangue quando se pode fazer uma área rubra em ebulição e evocar uma calamidade pela dramaticidade da imagem?

Seja nas suas alegorias sobre a violência urbana, seja no seu olhar dilacerante sobre as muitas solidões das mulheres negras – especialmente daquelas que são mães, assim como ela -, Márcia Falcão nos convida a juntar as peças de suas narrativas. Para a artista, a pintura é uma forma de dar sentido para existências que estão em cacos. Assim como na vida, sempre haverá algo faltando. Enquanto isso, vamos juntando os fragmentos de seus chãos vermelhos e aprendendo sobre as histórias que suas pinturas contam.

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