Marcelo Vaz | Museu de Arte da Bahia

Série documental retrata nuances da relação do povo sertanejo com a chuva

“Tempo bonito no sertão é com o céu fechado de nuvens carregadas”. A frase que acompanha uma das obras de Presságio traduz a linha narrativa que costura a pesquisa do fotógrafo e artista visual Marcelo Vaz e resulta em sua primeira mostra individual. Todas as fotografias têm uma única localização: Macaúbas, cidade do Centro-Sul baiano. Filho da terra, o artista transporta para seu trabalho a memória de um povo que vê beleza nos dias nublados e ressignifica o próprio sentido da palavra que dá nome ao projeto. A mostra, realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), está em cartaz no MAB (Museu de Arte da Bahia) até 23 de agosto, com acesso gratuito.

No espaço expositivo, destacam-se 26 imagens de uma série documental que sugere uma linha do tempo inspirada nos instantes que marcam a espera pela chuva. Da expectativa causada pelo céu ligeiramente nublado até a celebração do açude repleto, há flagrantes de nuvens que mimetizam figuras humanas, recortes de um solo árido, duelo de cores no horizonte, a vegetação castigada pela seca e singelos registros de fé. Emoldurados em formato 90 × 60 cm, os cliques de Marcelo Vaz ganham a companhia de uma instalação em forma de janela, que convida a experimentar o ponto de vista do fotógrafo.

“A janela é um elemento importante porque representa, ao mesmo tempo, um lugar físico e uma forma de enxergar o mundo. Foi através das janelas da minha casa que comecei a fotografar as nuvens, como prática diária do aprendizado na fotografia. Foi de onde o Presságio se originou e formou novas janelas para que outras pessoas também possam olhar, interpretar e construir suas próprias leituras”, explica Vaz, que revela a influência de suas memórias de infância. “Macaúbas é a minha origem. Foi onde nasci, cresci, construí minhas primeiras referências, onde aprendi a observar a natureza e a vida do sertão. Hoje percebo que minhas fotografias carregam essa herança afetiva e traduzem um olhar formado pela experiência de viver e recordar tudo isso”, reforça.

O ambiente também conta com a representação de grandes nuvens, que extrapolam a superfície das fotografias presas às paredes e sobem ao teto para criar um céu sobre o público. “A ideia por trás das nuvens é dar sequência ao convite de Presságio, incentivando-nos a estarmos presentes e a apreciarmos o que parece ser comum. É um chamado para nos vermos como parte do cosmos”, explica a artista multidisciplinar Helen Salomão, que assina a curadoria da exposição e compartilha com Marcelo Vaz o interesse pela confluência com a natureza e por questões ligadas à espiritualidade. A partir da escuta atenta, ela buscou honrar a trajetória do artista. “É a perspectiva de alguém que realmente vive no sertão e conhece o valor e as bênçãos que a chuva traz”, ressalta a curadora.

Em dimensões reduzidas, outra série desperta a curiosidade pelo uso da cianotipia, processo artesanal que transforma a fotografia digital em um “negativo” em tom azul característico e conta com a contribuição da artista Letícia Durlo. Impressas em papel vergê no formato 20 × 20 cm, as peças podem ser tocadas livremente, o que garante uma experiência sensorial a quem visita Presságio. Exceto essas, todas as obras apresentadas na mostra estão disponíveis para aquisição em tiragem limitada, produzidas com impressão Fine Art e acompanhadas de certificado de autenticidade.

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